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Canais misóginos no YouTube somam mais de 130 mil vídeos e 23 milhões de inscritos, aponta estudo

Redação Blé NewsRedação Blé News
11 de março de 2026 às 17:50· Atualizado em 14/03/2026 às 21:49

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Conteúdo misógino cresce no YouTube
Conteúdo misógino cresce no YouTubeReprodução/Canva/Arte Equipe Blé News

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Levantamento da UFRJ mostra crescimento de conteúdos que disseminam desprezo e ataques contra mulheres na plataforma.

Um levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revelou que pelo menos 123 canais brasileiros no YouTube produzem conteúdo misógino. Juntos, eles acumulam mais de 130 mil vídeos publicados e cerca de 23 milhões de inscritos.

Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (9), logo após o Dia Internacional da Mulher, e atualizam um estudo realizado em 2024. Na época, o levantamento havia identificado 137 canais com esse tipo de conteúdo. Desde então, apenas 14 foram removidos, seja por decisão da plataforma ou pelos próprios criadores.

Apesar da redução no número de canais, o alcance desse tipo de conteúdo continua crescendo.

Número de seguidores aumentou

Segundo o NetLab, os canais que permaneceram ativos ganharam ainda mais audiência.

Desde abril de 2024, houve um aumento de 18,5% no número de inscritos, com a entrada de mais de 3,6 milhões de novos seguidores.

O estudo também aponta que muitos desses criadores lucram com os vídeos. Na primeira amostra analisada, cerca de 80% dos canais tinham algum tipo de monetização, seja por meio de anúncios, programa de membros ou vendas externas, como e-books e doações via Pix.

Para a pesquisadora do NetLab Luciane Belín, isso mostra que o discurso de ódio contra mulheres também virou um modelo de negócio na internet.

Não é só a opinião deles, mas também uma oportunidade de ganhar dinheiro pautada na humilhação e inferiorização das mulheres”, explica.

O que caracteriza misoginia no estudo

Para identificar os conteúdos, os pesquisadores desenvolveram um protocolo específico de análise de discurso.

Segundo Luciane Belín, o conceito de misoginia usado no estudo vai além da violência direta.

Nós trabalhamos com um conceito de misoginia que inclui não apenas o ódio explícito, mas também sentimentos de desprezo e ideologias que defendem a inferiorização das mulheres”, afirmou.

Para ser incluído no levantamento, o canal precisava ter pelo menos três vídeos com manifestações de ódio ou desprezo contra mulheres.

“Desprezo às mulheres” é o tema mais comum

Entre os conteúdos analisados, 42% dos vídeos foram classificados na categoria “Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina”.

Nessa categoria estão vídeos que incentivam homens a não se “submeterem” às mulheres, além de conteúdos que tratam iniciativas de igualdade de gênero como supostas tentativas de dominação masculina.

Os pesquisadores também identificaram o uso frequente de termos ofensivos, como “burra” e “vagabunda”, para se referir às mulheres.

Estratégias para driblar moderação da plataforma

O estudo também aponta que alguns criadores utilizam estratégias para driblar os mecanismos de moderação da plataforma.

Entre as táticas estão:

  1. uso de abreviações e apelidos
  2. substituição de palavras (como “mulher” por “colher”)
  3. termos codificados para grupos específicos, como “msol” para se referir a mães solo

Além disso, muitas vezes o conteúdo ofensivo aparece nas imagens utilizadas nos vídeos, que mostram mulheres em posições de submissão ou altamente sexualizadas.

Fenômeno recente nas redes

Outro dado relevante do relatório é que a popularização desses conteúdos é relativamente recente.

Embora o vídeo mais antigo identificado seja de 2021, cerca de 88% dos vídeos foram publicados a partir desse ano.

Entre janeiro de 2023 e abril de 2024, mais da metade dos canais mapeados entrou na plataforma. Desde então, cerca de 25 mil novos vídeos foram adicionados.

Debate sobre responsabilidade das plataformas

A pesquisadora Luciane Belín defende que o avanço desse tipo de conteúdo exige maior responsabilização das plataformas digitais.

Se é crime fora da internet, precisa ser crime dentro da internet”, afirma.

Ela também aponta que a criminalização da misoginia pode ser um caminho para reduzir a disseminação desses discursos.

A Google, empresa responsável pelo YouTube, foi procurada pela reportagem, mas ainda não se manifestou sobre o levantamento.


Fonte; Agência Brasil

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