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Cultura

Exposição no Museu Afro Brasil desmistifica Exu: longe do “diabo” cristão, orixá é celebrado como guardião da memória

Alexandro OliverAlexandro Oliver
30 de março de 2026 às 19:23· Atualizado em 30/03/2026 às 19:33

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Exposição em São Paulo ressignifica Exu e combate visão distorcida sobre o orixá
Exposição em São Paulo ressignifica Exu e combate visão distorcida sobre o orixáLetycia Bond/Agência Brasil

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Mostra “Padê – sentinela à porta da memória” reúne obras de 15 artistas para contar a história do orixá mais incompreendido do país e resgata a força de pombagiras como símbolo de resistência feminina.

É no limiar, na encruzilhada, que tudo começa. É Exu quem abre os caminhos, quem permite a comunicação entre o sagrado e o profano. Longe da imagem deturpada pelo cristianismo no Brasil que o associa ao diabo, esse orixá fundamental para as religiões de matriz africana ganha destaque na última sexta-feira (21), um espaço de reverência e reflexão no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, em São Paulo. A exposição “Padê – sentinela à porta da memória”, que fica em cartaz até 26 de julho, mergulha na complexidade de Exu e das pombagiras, celebrando sua importância como guardiões da memória e da ancestralidade.

Enquanto a visão ocidental e cristã insiste em uma dualidade engessada entre bem e mal, as culturas de matriz africana nos apresentam um universo muito mais fluido. Exu é a prova viva disso. Ele é a potência do movimento, o senhor das encruzilhadas, senhor das passagens invisível – esses espaços de transição entre o espiritual e o físico, entre uma fase da vida e outra. Para umbandistas, candomblecistas e quimbandistas, sem sua licença, nada se concretiza.

Exposição sobre Exu no Museu Afro Brasil ressignifica orixá e combate estigmas históricos — Foto; Reprodução/Instagram/@museuafrobrasil

A curadoria da mostra, a cargo de Rosa Couto (doutora em História pela Unesp), foi cuidadosamente dividida em três seções para guiar o visitante nessa jornada de conhecimento:

  • África: Onde a exposição enfatiza os rituais e diálogos originais da divindade.

  • Travessia: Que explora Exu em sua manifestação como figura ligada ao movimento, às estradas, oceanos e ruas.

  • Diáspora: O coração da mostra, onde obras de arte retratam como Exu se reinventou e se consolidou nas religiões afro-brasileiras.

O público terá a oportunidade de ver obras de nomes de peso como Emanoel Araujo, Sidney Amaral, Gustavo Nazareno, Carla Désirée, Felix Farfan, Ronaldo Rêgo, Mario Cravo Neto, Pierre Verger, Mestre Didi, Moisés Patrício, Georges Liautaud, Rafaela Kennedy, Rochelle Costi e Juliana Araujo entre outros artistas que ajudam a construir essa narrativa visual e histórica.

“Autorresponsabilidade”: o antídoto ao preconceito

Um dos pontos altos da programação foi a performance da artista Ayô Tupinambá, que aconteceu na última quinta-feira (26). Autointitulada travesti afroindígena, Ayô trouxe sua vivência como umbandista para o projeto “Negras Palavras”, que já recebeu nomes como Juçara Marçal e Fabiana Cozza.

Em sua apresentação "Exú-Mulher", Ayô não apenas cantou, mas explicou a filosofia que rege essas entidades. “Dentro das nossas religiões, a gente não acredita no diabo. A gente acredita em autorresponsabilidade, que aquilo que eu faço de bom, de ruim, tem a ver comigo. Não tem como eu culpar uma terceira pessoa, um terceiro ser, por aquilo que eu faço”, afirmou a artista, em um discurso direto que confronta séculos de estigmatização.

Ela também abordou a simbologia por trás dos objetos muitas vezes associados ao imaginário do mal. “É muito comum ter nessas ferramentas esses tridentes, que as pessoas acabam relacionando ao diabo cristão, mas são um pedaço de ferro para simbolizar o poder e a força dessa entidade”, pontuou.

Exu em destaque em São Paulo! Exposição no Museu Afro Brasil combate estigmas e revela a verdadeira essência do orixá — Foto; Reprodução/Instagram/@museuafrobrasil

O poder feminino na encruzilhada

A exposição e a performance também colocam luz sobre figuras muitas vezes relegadas ao esquecimento ou à moralidade: as pombagiras. Ayô explica que essas entidades femininas, como Maria Mulambo, Maria Padilha e Maria Quitéria, são ancestrais que retornam para orientar as novas gerações.

“As pombogiras são ancestrais, negras, indígenas do Brasil, que, por algum motivo, acabaram morrendo e voltam, dentro desses cultos, para nos orientar sobre nossas dificuldades, nossas lutas”, detalha a performer. “Na maioria das vezes, foram cortadas, retaliadas, machucadas, feridas e vêm para nos proteger, nos fortalecer. É muito simbólico, dentro da programação do museu, trazer esse trabalho, principalmente com o aumento da violência contra mulheres.”

A presença de estudantes do ensino fundamental durante a performance reforça o caráter educativo e de resgate cultural que a mostra propõe, ensinando desde cedo sobre o respeito à diversidade religiosa.

Leia também; Intolerância religiosa no Brasil: Disque 100 registra 2.774 denúncias entre 2025 e 2026

Um reflexo do Brasil que cresce

Dados do último Censo Demográfico de 2022 corroboram a relevância de se discutir o tema. Embora o catolicismo ainda lidere em todo o país, a parcela da população que se declara umbandista ou candomblecista cresceu de 0,3% para 1% entre 2010 e 2022, com maior presença nas regiões Sul e Sudeste.

A exposição “Padê – sentinela à porta da memória” é, portanto, mais do que uma mostra de arte; é um ato de reparação e de educação. Ao celebrar Exu e suas entidades, o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo nos convida a olhar para as encruzilhadas não com medo, mas com a curiosidade de quem entende que ali reside o movimento, a comunicação e a própria memória de um povo.

Laáróyè Èsù, mo júbà!
Que Exu siga abrindo caminhos — inclusive os do conhecimento.

Serviço:

  • Exposição: Padê – sentinela à porta da memória

  • Data: De 21 de março a 26 de julho de 2026

  • Local: Museu Afro Brasil Emanoel Araujo – Parque Ibirapuera, Portão 10 – São Paulo – SP

  • Curadoria: Rosa Couto

  • Comitê Curatorial: Vera Nunes, Renata Dias e Maurício Pestana
  • Patrocínio: Vivo, via Lei Rouanet

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