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São Paulo

Fantasmas em Perus? Moradores acusam prefeitura e governo de SP de recrutarem atores para fraudar audiência pública sobre incinerador

Redação Blé NewsRedação Blé News
02 de abril de 2026 às 20:52

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"Manipulação da democracia": lideranças de Perus denunciam recrutamento de falsos moradores em audiência
"Manipulação da democracia": lideranças de Perus denunciam recrutamento de falsos moradores em audiênciaReprodução/Movimento Incinerador de Lixo em Perus, não

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Ônibus com “falsos moradores” lotaram o CEU Perus, impedindo a entrada da comunidade. Uma pessoa contratada confirmou à Agência Brasil que recebeu dinheiro para apoiar o projeto da URE Bandeirantes.

O que era para ser um exercício de democracia virou um roteiro de novela. Na última segunda-feira (1º), moradores do distrito de Perus, na zona noroeste de São Paulo, denunciaram uma fraude na audiência pública que discutiria a instalação de um incinerador de lixo (chamado tecnicamente de Unidade de Recuperação de Energia – URE) no bairro. A suspeita é que a prefeitura e o governo estadual, em parceria com a concessionária Loga, tenham recrutado pessoas de fora da região para lotar o espaço, silenciar a comunidade e forçar um discurso de aprovação ao projeto. Uma testemunha ouvida pela reportagem da Agência Brasil confessou ter recebido dinheiro para interpretar uma “moradora” de Perus.

Enquanto centenas de moradores reais de Perus ficavam do lado de fora, sob chuva e barrados pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), uma longa fila se formava na porta do CEU Perus. O problema? Ninguém na comunidade reconhecia os rostos.

Moradores reais de Perus x “atores” contratados (sim, uma pessoa confessou que recebeu dinheiro!) – Foto: Reprodução/Portal Metrópoles 

De acordo com a apuração da Agência Brasil, ônibus estacionaram nas proximidades e desembarcaram pessoas que, comprovadamente, não residiam no distrito. Uma dessas pessoas, contatada pela reportagem sob condição de anonimato, revelou o modus operandi: “Recebi dinheiro para estar lá. Há três anos eu participo de grupos que formam plateia para programas de TV. Dessa vez, teve um homem que nos orientava quando aplaudir ou vaiar.”

O objetivo, segundo a denúncia, era claro: ocupar as vagas para discursar, atrapalhar os verdadeiros moradores de levar suas críticas ao microfone e criar uma falsa impressão de apoio popular ao incinerador.

Com o teatro do CEU lotado por esses “falsos moradores”, cerca de 500 pessoas da comunidade ficaram impedidas de entrar. A prefeitura instalou dois televisores no saguão, mas o espaço não comportou a todos. Crianças e idosos aguardavam em pé, sob chuva.

Do lado externo, a cena era de tensão. Agentes da GCM formaram um cordão de isolamento armados com escudos e gás de pimenta. Houve hostilidade contra vereadores presentes, que tiveram a fala proibida. A prefeitura nega o uso de equipamento de menor potencial ofensivo, mas as imagens e relatos da comunidade contradizem a versão oficial.

Na entrada do Ceu Perus, Guarda Municipal (GCM) com escudos e gás de pimenta barrando a comunidade. Vereadores tiveram a fala proibida – Foto: Reprodução/Movimento Incinerador de Lixo em Perus, não

A luta de quem já viveu o inferno tóxico

Perus não é um território qualquer. A região carrega cicatrizes profundas: abriga a Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco (usada para esconder corpos de perseguidos políticos na ditadura) e fica próxima ao Hospital Psiquiátrico do Juquery, símbolo de violações de direitos humanos.

E a poluição é velha conhecida. Entre 1979 e 2007, o Aterro Sanitário Bandeirantes despejou ali de 35 a 40 milhões de toneladas de lixo. Agora, a Loga quer instalar a URE Bandeirantes – um incinerador moderno, segundo a empresa, mas tratado como “ultrapassado” por ambientalistas.

“Esse tipo de incinerador já está sendo desativado no mundo. As cinzas tóxicas e o tráfego de milhares de caminhões vão piorar a saúde de quem já não tem atendimento digno. Médicos não querem vir pra periferia. A prefeitura não teria capacidade de fiscalizar.”
— Mario Bortoto, engenheiro químico e líder comunitário.

Leia também: Justiça determina retomada imediata do serviço de aborto legal em hospital referência de SP após suspensão ilegal

Dados da desigualdade

Mapa da Desigualdade 2025 (Rede São Paulo) escancara a realidade de Perus:

  • Expectativa de vida média: apenas 62 anos.

  • Emissão de poluentes: 6º lugar no ranking por área.

  • Pontos de coleta de lixo (PEV): 66º lugar.

Ou seja, a região já sufoca com poluição e abandono. Para os moradores, o incinerador é o capítulo final de um histórico de violência ambiental e social.

Movimento Incinerador de Lixo em Perus, não denuncia Audiência pública sobre a instalação de um incinerador de lixo (URE Bandeirantes) – Foto: Reprodução/Movimento Incinerador de Lixo em Perus, não

A solução que vem da comunidade

Enquanto a prefeitura e o governo apostam na queima do lixo, a população organizada propõe outro caminho: a criação de um Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera. A ideia é investir em turismo de base comunitária, valorizar a natureza e romper com a lógica predatória.

“A audiência era para ser um espaço democrático, mas vimos manipulação da informação e do público. Ainda assim, vamos fazer nossa própria audiência popular.”
— Thais Santos, química e consultora da WWF Brasil.

O outro lado

Procuradas, as partes envolvidas se manifestaram:

  • Cetesb (ambiental estadual): Disse que todas as colocações da audiência serão incluídas no processo de licenciamento.

  • SP Regula e Loga (concessionária): Negaram qualquer “oferta de vantagem” a participantes. Afirmaram que a presença foi espontânea, que a URE é moderna e segura, e que o projeto reduzirá o volume de resíduos em aterros.

  • Prefeitura de SP: Negou o uso de equipamentos agressivos pela GCM, mas não se pronunciou sobre a acusação de recrutamento de “falsos moradores”.

A comunidade, no entanto, não se cala. A luta em Perus agora tem data: a próxima audiência não será no teatro da prefeitura, mas nas ruas, organizada pelos verdadeiros moradores do distrito.

Com informações da Agência Brasil

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