Maria da Penha cobra rede direta de apoio para mulheres do interior e critica falhas da Justiça

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Ativista que dá nome à Lei Maria da Penha defende educação nas escolas e denuncia morosidade do Judiciário no combate à violência doméstica.
O combate à violência doméstica no Brasil precisa alcançar também as pequenas cidades. Esse foi o alerta feito pela ativista Maria da Penha Maia Fernandes durante participação no seminário “Brasil pela Vida das Meninas e Mulheres”, realizado nesta quarta-feira (4), em Brasília. Para ela, é urgente criar uma rede direta de apoio às vítimas, especialmente em regiões do interior, onde muitas agressões ainda permanecem invisíveis.
Maria da Penha, que dá nome à Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, afirmou que a proteção às mulheres deve ser concreta e acessível. Segundo ela, muitas vítimas acabam isoladas justamente pela falta de estrutura e apoio social nas comunidades menores.
Violência muitas vezes é normalizada
Durante o seminário, a ativista destacou que em diversas cidades pequenas ainda existe uma cultura que protege o agressor, principalmente quando ele é o provedor da família.
Segundo ela, muitas mulheres são pressionadas a permanecer em relações abusivas porque o companheiro “não deixa faltar comida em casa”, ignorando as violências psicológicas e físicas.
A própria Maria da Penha relembrou que, por muito tempo, não percebeu que era vítima de violência doméstica. Em 1983, ela sofreu duas tentativas de feminicídio pelo então marido, o economista Marco Antônio Heredia Viveiros. Um tiro disparado por ele a deixou paraplégica.
Críticas à morosidade do Judiciário
Outro ponto destacado pela ativista foi a lentidão do sistema judicial brasileiro no julgamento de crimes contra mulheres.
O caso dela levou quase 20 anos para ter uma decisão definitiva. As agressões aconteceram em 1983, mas o agressor só foi preso em 2002, após pressão internacional e condenação do Brasil pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA.
Maria da Penha afirma que ainda hoje muitas vítimas enfrentam descrédito e revitimização dentro do próprio sistema de justiça.
“Quantos absurdos acontecem no poder Judiciário? Quem tem um bom linguajar consegue anular uma pena justa”, afirmou.
Educação como caminho para mudança
Para a ativista, a transformação social precisa começar pela educação. Por meio do Instituto Maria da Penha, ela desenvolve o projeto “Maria da Penha vai às Escolas”, que traduz a lei para uma linguagem acessível para crianças e adolescentes.
A iniciativa deve ganhar reforço nacional. A ministra das Mulheres anunciou que o Ministério da Educação pretende regulamentar o programa, ampliando o debate sobre violência de gênero nas escolas brasileiras.
Novo capítulo da história
Maria da Penha também revelou que está preparando uma nova edição do livro “Sobrevivi... posso contar”, lançado originalmente em 2014.
Na obra, ela relata as violências que sofreu e os desafios enfrentados até a criação da lei que leva seu nome. A nova edição deve incluir acontecimentos recentes da sua luta, incluindo o pedido público de desculpas feito pelo Tribunal de Justiça do Ceará, em dezembro de 2025, pela demora histórica no julgamento do caso.
Para a ativista, compartilhar sua história continua sendo uma forma de fortalecer a luta contra a violência de gênero.
“Eu considero meu livro a carta de alforria das mulheres brasileiras”, afirmou.
Fonte; Agência Brasil
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