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Missionário causa revolta ao associar Salvador e Olinda a “demônios” e reacende debate sobre racismo religioso no Brasil

Alexandro OliverAlexandro Oliver
26 de março de 2026 às 21:00· Atualizado em 26/03/2026 às 21:54

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Nick Moretti causa revolta ao associar Salvador e Olinda a “demônios”
Nick Moretti causa revolta ao associar Salvador e Olinda a “demônios”Reprodução

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Com mais de 750 mil seguidores, Nick Moretti pede desculpas após fala viral — especialistas alertam para normalização da intolerância.

O missionário evangélico Nick Moretti provocou forte indignação nas redes sociais após um vídeo em que associa as cidades de Salvador (BA) e Olinda (PE) a “demônios”. A fala, considerada por muitos como racismo religioso, ganhou ainda mais repercussão por conta do alcance do religioso, que soma mais de 750 mil seguidores em diferentes plataformas digitais.

No Instagram, Moretti reúne cerca de 543 mil seguidores; no TikTok, 129 mil; no YouTube, 94 mil; e na rede X (antigo Twitter), mais de 7 mil. O volume expressivo de público ampliou o impacto da declaração, levantando questionamentos sobre responsabilidade de influenciadores religiosos.

As falas ocorreram durante uma pregação ligada aos movimentos Dunamis Movement e The Send. Em tom descontraído, Moretti afirmou “odiar” Salvador e disse que a cidade “parece que você está andando pedindo licença pra demônio”.

Ele também relatou ter sentido enjoo ao chegar em Olinda, associando a sensação a um suposto “discernimento espiritual”, ao mencionar locais com nomes ligados a orixás, como Ogum e Oxalá.

A reação nas redes foi imediata: internautas, lideranças religiosas e ativistas classificaram o discurso como ofensivo e discriminatório.

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Racismo religioso e a normalização do discurso

O episódio reacende uma discussão estrutural no Brasil: a normalização do racismo religioso, especialmente contra religiões de matriz africana.

Especialistas apontam que falas como essa reforçam estigmas históricos ao associar divindades afro-brasileiras a figuras demonizadas — algo que não existe dentro dessas tradições. Nas religiões de matriz africana, não há a figura de “demônio”, nem mesmo como conceito linguístico ou teológico.

Ainda assim, discursos religiosos e políticos frequentemente utilizam essas associações para justificar narrativas baseadas na demonização.

O tema também ganhou força recente após declarações do deputado estadual Amauri Ribeiro (União Brasil), que criticou uma exposição sobre religiões de matriz africana na Assembleia Legislativa de Goiás.

Durante discurso, o parlamentar afirmou:

“Adoração a demônio dentro dessa Casa eu acho que não é de boa espiritualidade para nós deputados.”

Apesar de alegar respeito à diversidade religiosa, ele declarou reconhecer apenas religiões ligadas a “um único Deus, Jesus Cristo”, o que gerou críticas por intolerância.

Pedido de desculpas

Após a repercussão negativa, Nick Moretti publicou um pedido de desculpas nas redes sociais.

Ele afirmou que sua fala foi “equivocada”, que não odeia as cidades citadas e que sua intenção era abordar “resistência espiritual”, mas reconheceu que a mensagem foi mal interpretada.

Veja a nota;

“Quero pedir perdão aos meus irmãos de Salvador.

Uma fala equivocada viralizou dizendo que odeio Salvador, o que não representa o que acredito. Minha intenção era falar sobre a resistência espiritual do período de Carnaval de Olinda e de Salvador, porém isso não ficou claro para quem ouve.

Não publiquei o trecho que viralizou, nem o publicaria. Reconheço meu erro e me retrato publicamente, o que também farei pessoalmente com aqueles que ouviram.

Não odeio Salvador nem Olinda. Essas cidades são alvo do Amor e da Graça do Senhor, assim como todo Brasil.

Peço perdão a Deus, aos meus irmãos dessas regiões e a todos que ofendi”.

Entre liberdade de expressão e responsabilidade social

O caso levanta uma questão central: como combater o racismo religioso em um cenário onde figuras públicas — religiosas e políticas — reforçam esse tipo de narrativa?

Em um país diverso como o Brasil, onde religiões de matriz africana fazem parte da base cultural e espiritual, especialistas defendem que liberdade de expressão não pode ser confundida com discurso discriminatório.

O desafio, segundo analistas, está em educar, responsabilizar e, principalmente, romper com práticas que historicamente marginalizam essas tradições.

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