Negros têm até 2,3 vezes mais risco de morrer por homicídio no Brasil, revela estudo da USP

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Pesquisa mostra que, mesmo com condições semelhantes, a cor da pele ainda é fator determinante para a violência letal no país.
Pessoas negras têm até 2,3 vezes mais risco de morrer por homicídio no Brasil do que pessoas brancas, mesmo quando possuem idade, escolaridade e local de moradia semelhantes. É o que aponta um estudo publicado na revista científica “Ciência & Saúde Coletiva”, conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo com base em dados de 2022. A pesquisa evidencia que a cor da pele segue sendo um fator determinante na violência letal no país.
A pesquisa utilizou um método estatístico chamado “escala de propensão”, que permite comparar indivíduos com características semelhantes — como idade, sexo e região — isolando a cor da pele como variável principal.
Segundo o médico e pesquisador Rildo Pinto, o objetivo foi justamente identificar se o fator racial, por si só, influencia o risco de morte violenta.
“Ao controlar fatores como escolaridade, local de moradia e estado civil, conseguimos mostrar que a morte violenta está relacionada à cor da pele”, explica.
Dados que escancaram desigualdade
Os dados analisados vieram de duas principais fontes:
- Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM)
- Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Entre os principais achados:
- ⚠️ Pessoas negras têm até 2,3 vezes mais risco de homicídio
- 📉 Em média, há 49% mais chance de morte violenta em comparação com pessoas brancas
- 👤 O perfil das vítimas é majoritariamente de homens jovens, negros, solteiros e com baixa escolaridade
- 🚨 Em áreas mais violentas, 9 em cada 10 vítimas são pretas ou pardas
Utilizando uma técnica chamada análise geoespacial, o estudo mapeou o país e o dividiu em áreas classificadas por níveis de risco — Foto: Autores do estudo
Onde a violência é maior
A pesquisa também analisou a distribuição geográfica da violência no Brasil, utilizando conceitos como:
- Hot spots: áreas com alta concentração de homicídios
- Cold spots: regiões com menor incidência
Os resultados mostram:
- 📍 Maior concentração de violência na região Nordeste
- 📍 Menores índices, em geral, nas regiões Sul e Sudeste
Um ponto que chamou atenção foi uma área entre Paraíba e Rio Grande do Norte, onde os dados não refletiam a realidade esperada. A hipótese levantada é de subnotificação de homicídios, conhecida como “homicídio oculto”.
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Racismo estrutural e violência
Mesmo em regiões com menor violência, o padrão se repete: pessoas negras continuam sendo as principais vítimas.
Isso reforça o que especialistas já apontam há anos — o racismo estrutural influencia diretamente quem vive e quem morre no Brasil.
O que pode mudar?
Para os pesquisadores, o estudo não deve ficar apenas no campo acadêmico. A ideia é que os dados sirvam como base para políticas públicas mais eficientes.
Segundo Rildo Pinto, uma das soluções é replicar a análise em nível local:
- bairros
- cidades
- comunidades
A proposta é identificar padrões e aplicar estratégias que já deram certo em outras regiões.
“Reduzir a violência contra quem mais sofre beneficia toda a sociedade”, destaca.
Mais do que números, o estudo revela uma realidade dura: a desigualdade racial no Brasil não está só no acesso a oportunidades — ela também define quem está mais exposto à morte.
E enquanto essa realidade persistir, o debate sobre racismo e políticas públicas segue sendo urgente.
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