Racismo não é passado: 21 de março expõe violência, desigualdade e ataques às religiões afro no Brasil

PUBLICIDADE
Data internacional reforça luta histórica enquanto números revelam aumento de casos de racismo, intolerância religiosa e desigualdade estrutural no país.
Celebrado em 21 de março, o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial marca uma das principais datas globais de enfrentamento ao racismo. Criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1966, o dia relembra o massacre de Sharpeville, na África do Sul, onde milhares de pessoas protestavam contra leis racistas do apartheid. No Brasil, a data também ganhou força legal e simbólica com avanços recentes no combate à discriminação racial.
O marco histórico remete ao Massacre de Sharpeville, ocorrido em 1960, quando mais de 20 mil pessoas negras protestavam contra a chamada Lei do Passe — um instrumento de controle racial imposto pelo regime do apartheid sul-africano.
A repressão violenta deixou dezenas de mortos e feridos, transformando o episódio em símbolo mundial da luta antirracista.
Décadas depois, o episódio segue como símbolo global de resistência — e de denúncia.
Foto; Reprodução/Canva/Arte Equipe Blé News
No Brasil, o combate ao racismo avançou ao longo das últimas décadas. A Lei nº 7.716 passou a considerar crime qualquer discriminação por raça, cor, etnia, religião ou origem.
Mais recentemente, em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 14.519/23, que institui o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé — também celebrado em 21 de março.
Outro avanço importante foi o reconhecimento da injúria racial como crime de racismo, ampliando a responsabilização penal. Mas, na prática, os números mostram outro cenário.
Os dados escancaram o problema:
- 📈 Crescimento de cerca de 31% nos casos de racismo entre 2018 e 2022
- ⚠️ 77,9% das vítimas de homicídios no Brasil são negras
- 👤 Jovens negros, entre 12 e 29 anos, são os mais atingidos
- 🧕🏾 86% das mulheres negras já sofreram racismo no ambiente corporativo
O racismo não é exceção — é uma estrutura que atravessa toda a sociedade.
Mãe Luizinha de Nanã, Mãe Dani de Oxum e Ebômi Sandra de Xangô, festividade anual de Oxum no Ilê Ìyá Omi Àṣè Adélode em Ribeirão Pires, SP — Foto; AO Photographo
Intolerância religiosa: racismo que atinge a fé
Os ataques às religiões de matriz africana também cresceram e revelam uma face direta do racismo estrutural.
Dados do Disque 100 mostram:
- 📞 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre 2025 e início de 2026
- 📍 São Paulo lidera com 667 casos
- 📍 Rio de Janeiro (446), Minas Gerais (323) e Bahia (211) vêm na sequência
As religiões mais atingidas são:
- Umbanda: 228 denúncias
- Candomblé: 161 denúncias
Um levantamento do relatório “Respeite Meu Terreiro” revela:
- 🚨 76% dos terreiros já sofreram racismo religioso
- ⚠️ 80% tiveram membros vítimas de violência
- ❗ 93% dos grandes terreiros relataram discriminação
Especialistas são diretos: não é apenas intolerância — é racismo religioso.
Leia também;
Ataque a terreiro de Umbanda em São Bernardo do Campo expõe avanço da intolerância religiosa
Racismo tem muitas formas — e nem sempre é visível
O racismo se manifesta de diversas maneiras:
- Estrutural e institucional
Trata-se de uma estrutura institucional, cultural e social, causando a perpetuação do enraizamento da intensificação do preconceito e da discriminação.
- Religioso
É um conjunto de ideias e práticas violenta que expressam a discriminação e o ódio por determinadas religiões de matrizes africanas.
- Cultural e educacional
Resulta na crença que existe superioridade entre as culturas existentes, no amplo sentido que "cultura" engloba, religião, costumes, línguas, dentre outras.
- Recreativo (disfarçado de “piada”)
Pode ser definido como uma ofensa de cunho racial disfarçada de piada. Essa atitude costuma diminuir pessoas negras ou outros grupos racionalizados, fazendo com que se sintam diminuídas pelas características que marcam sua etnia ou raça.
- Sutil (microagressões)
Refere-se a formas mais discretas e subjetivas de discriminação racial, que podem ser mais difíceis de identificar e combater do que formas mais explícita de racismo. Isso pode incluir microagressões, estereótipos raciais, preconceitos implícitos e discriminação institucionalizada.
- Internalizado
Apesar de ser pouco discutido, esse tipo de racismo é mais frequente do que se imagina, sobretudo considerando os demais tipos de racismo que uma pessoa pode sofrer. Isso porque, nessa categoria, as atitudes e as crenças preconceituosas são como o próprio nome diz, internalizadas por membros de grupos racializados, que não aceitam a si ou a membros de seu próprio grupo.
Essas formas mostram que o problema vai além de atitudes individuais — ele está no funcionamento da sociedade.
O movimento negro, que nasce ainda no período escravocrata, segue na linha de frente por igualdade, justiça e políticas públicas.
Movimentos globais como #VidasNegrasImportam reforçam que essa luta ultrapassa fronteiras.
Foto; Reprodução/Arte Equipe Blé News
Referências que marcaram a história
Entre os nomes que simbolizam resistência estão:
- Abdias do Nascimento
Foi um ator, poeta, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras brasileiras.
- Nelson Mandela
Considerado como o mais importante líder da África Subsaariana, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1993, e pai da moderna nação sul-africana.
- Dandara dos Palmares
Foi uma guerreira negra do período colonial do Brasil no Quilombo de Palmares, casada com o maior líder quilombola já registrada, Zumbi dos Palmares.
- Lélia Gonzalez
Foi uma intelectual, autora, ativista, professora, filósofa e antropóloga brasileira. É uma referência nos estudos e debates de gênero, raça e classe no Brasil, América Latina e pelo mundo, sendo considerada uma das principais autoras do feminismo negro no país.
- Martin Luther King Jr.
Ativista norte-americano, Foi um defensor da desobediência civil e um adepto da não Violência onde lutou contra a discriminação racial. Tornou-se um dos mais importantes líderes dos movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964.
- Rosa Parks
Rosa Parks, mulher negra, (à época) costureira norte-americana, ficou conhecida por se recusar a ceder o lugar a um homem branco durante uma viagem de ônibus no estado do Alabama (EUA), região Sudeste do país, onde acabou presa. Virou símbolo do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.
- Angela Davis
Foi professora e filósofa socialista estadunidense que alcançou notoriedade mundial na década de 1970 como integrante do Partido Comunista dos Estados Unidos, das Panteras Negras.
O 21 de março não é apenas sobre lembrar o passado — é sobre enfrentar o presente.
Enquanto o racismo continuar matando, excluindo e silenciando, a luta não pode parar.
PUBLICIDADE