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Sexta-feira Santa no Candomblé: Por que o dia de luto cristão é o maior culto a Oxalá?

Alexandro OliverAlexandro Oliver
03 de abril de 2026 às 20:21· Atualizado em 03/04/2026 às 21:47

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Sexta-feira Santa no Candomblé: sincretismo, resistência e o culto a Oxalá
Sexta-feira Santa no Candomblé: sincretismo, resistência e o culto a OxaláReprodução/YouTube/Fernanda Portella

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Longe do sincretismo simplório, a data revela uma estratégia de resistência africana. Entenda o papel do kàlẹ́ńdà (Kójódá), o calendário sagrado iorubá de 4 dias, e o significado do branco, do silêncio e do banquete de peixe nos terreiros.

Enquanto o mundo cristão vive um dia de luto e silêncio pela morte de Cristo, os terreiros de Candomblé no Brasil se preparam para a maior celebração do ano dedicada a Oxalá (Ọ̀ṣàlá), o senhor da criação. O que para muitos pode parecer apenas um reflexo do sincretismo religioso é, na verdade, um ato profundo de resistência cultural e fé. Para entender essa escolha, precisamos voltar no tempo – bem antes do calendário gregoriano – e conhecer o kàlẹ́ńdà (Kójódá), o sistema de semanas de 4 dias dos povos iorubás, onde a sexta-feira já era, originalmente, o dia do manto branco.

Historicamente, a mistura entre santos católicos e orixás não foi um acaso ou uma simples cópia. Foi uma inteligente estratégia de sobrevivência. Para cultuar suas divindades sob o olhar vigilante e opressor dos colonizadores, os povos africanos escravizados estabeleceram paralelos.

A Sexta-Feira Santa, o auge do sofrimento de Jesus, tornou-se o palco ideal para cultuar a divindade suprema da nação iorubá: Oxalá, o pai de todos os outros orixás. Como explica a tradição oral, para o povo de axé (Àṣẹ), toda sexta-feira é santa. O feriado nacional apenas amplifica a possibilidade de reunir a comunidade para cumprir preceitos que, na correria do cotidiano, seriam mais difíceis.

Sexta-feira Santa no Candomblé: sincretismo, resistência e o culto a Oxalá — Foto: Reprodução/Prefeitura de Olinda

Antes da imposição do calendário gregoriano pelo Papa Gregório XIII em 1582, os povos iorubás já tinham uma forma sofisticada de medir o tempo, baseada na observação da lua, da natureza e, principalmente, em sua cosmologia.

O nome desse sistema é Kójódá. Nele, o ano tem 13 meses de 28 dias, e a semana tem apenas 4 dias. Por quê? A crença tradicional diz que o Universo é redondo e sua criação começou com 4 cantos. Esse número fixo (4) é a semente primordial que define a estrutura social e religiosa iorubá.

No início, não havia dias da semana. A divindade suprema, Elédùmarè, decidiu dar uma semana de 4 dias aos Òrìsà. E a escala era a seguinte:

Antes do Papa Gregório, os Yorubás já tinham um calendário sagrado -  Foto: Arte Equipe Blé News

Perceba o ponto central: O terceiro dia da semana iorubá original, o Òsè Obàtálá, já era consagrado a Oxalá. Quando os africanos chegaram ao Brasil e foram forçados a se adaptar ao calendário de 7 dias do colonizador, a “tradução” mais próxima para o dia de paz, branco e serenidade foi a sexta-feira – o dia em que o catolicismo relembra a morte de Cristo.

O despertar na Roça e o Silêncio Sagrado

A preparação começa na noite de quinta-feira. Os filhos de santo se recolhem à “roça” (área sagrada do terreiro) e passam pelo ritual de ebó e por banhos de ervas, para que, ao despertarem na sexta-feira, já estejam imersos na energia funfun — o branco, cor que simboliza a paz, a pureza e a ética de Oxalá.

O dia começa cedo, por volta das 6h da manhã. Ao acordar, o jejum neste período é uma prática comum para o povo de axé. Antes de qualquer tipo de alimentação, todos se reúnem em silêncio, quebrado ritualisticamente com o compartilhamento do obì (noz-de-cola).

Esse ato é acompanhado de rezas que agradecem a proteção e marcam o retorno simbólico dos orixás guerreiros, que agora cedem espaço à paz do Grande Pai. Ninguém sai da casa de axé; todos permanecem recolhidos na roça, imersos nas ritualísticas ao longo de todo o dia.

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Na minha infância, lembro bem desses rituais, realizados em muitas casas de axé, reunindo irmãos e fortalecendo uma conexão não só com o sagrado, mas também com aqueles presentes.

A alimentação neste dia é carregada de simbolismo. Não se trata apenas de comer, mas de comungar com o sagrado e com os irmãos de axé:

A canjica (ègbo), o milho branco cozido — alimento predileto do orixá — é servida como um pedido de equilíbrio e fartura. O inhame (ìyán) é servido como o “pão dos orixás”, simbolizando fartura e energia cósmica ligada aos orixás funfun.

O peixe (ẹja), no almoço, é o prato principal, respeitando a abstinência de carne vermelha e alinhando-se aos preceitos de pureza do ori e da fartura.

A diversidade cultural do Candomblé também aparece aqui. Em casas de nação Angola, por exemplo, a data é marcada pelo ritual da Kura (fechamento de corpo), uma herança dos povos Ndembu de Luanda, que envolve incisões para proteção contra negatividades.

Outra tradição fascinante é cobrir os igbá (assentamentos sagrados dos orixás) com tecidos brancos durante a Quaresma — uma adaptação que, no Candomblé, simboliza resguardo e respeito.

Qual a relação entre a Sexta-feira e Oxalá? História e rituais — Foto: Reprodução/Canva

Por que Sexta-feira? A Tradução do Calendário Sagrado

A adaptação do calendário iorubá ao ocidental foi uma necessidade. Para fazer negócios e sobreviver em um tempo em que nossos ancestrais precisavam seguir as regras de seus colonizadores, os iorubás adotaram a semana de sete dias. Mas o sagrado não se perdeu — ele foi realocado:

Ou seja, a Sexta-Feira Santa, assim como todas as sextas-feiras ao longo do ano, é, para o Candomblé, a confirmação de uma regra ancestral que vem do Kójódá: o dia do branco, do silêncio e da paz — o dia de louvar os orixás funfun e nossos ancestrais.

Voltando à ritualística da Sexta-Feira Santa, presente em algumas nações do Candomblé, ao fim da tarde, por volta das 18h, o período de maior quietude se encerra. Os tecidos que cobriam os igbá são retirados, e o axé da casa é “acordado” para um novo ciclo do ano.

Como diz a saudação: “Òrìsànlá Olúwa èwù ni funfun” (O Grande Òrìsà, dono do manto branco). Que Oxalá se faça presente, proporcionando paz e tranquilidade para toda a humanidade.

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