Comerciante é acusado de 'macumba' ao fazer ritual de farofa para Exu

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Ritual de farofa para pedir prosperidade foi confundido com ataque. Vítima registrou tudo e expôs o caso.
Um vídeo que viralizou nas redes sociais expõe mais um caso de intolerância religiosa no Rio de Janeiro. O comerciante e pai de santo Felipe Pimentel, conhecido como Babalorixá Felipe de Airá, foi acusado por uma vizinha de estar "fazendo macumba para o carro dela" enquanto realizava um ritual sagrado na última quinta-feira (9), na porta de sua loja, a Pimentinha by Kids, localizada na Rua Agostinho de Oliveira, 1061, no bairro Jardim Primavera, em Duque de Caxias. O ritual, que envolvia jogar farofa na rua, é uma oferenda para louvar e "acordar" Exu, pedindo proteção e prosperidade para o comércio. A mulher recusou ouvir a explicação de Felipe, que registrou a discussão e postou o vídeo como um desabafo e um posicionamento contra o preconceito.
Nas imagens, gravadas pelo próprio comerciante, é possível ver a tensão entre ele e a vizinha. Enquanto Felipe tenta explicar que o ato é parte da sua fé, a mulher insiste na acusação, dizendo que o ritual era direcionado ao veículo dela.
Vídeo: Comerciante e Pai de santo registra momento em que vizinha o acusa de fazer macumba em Duque de Caxias (RJ) — Foto; Reprodução/Instagram/@pimentel_fy
Felipe, visivelmente abalado, mas mantendo a calma, responde:
"Isto aqui é minha loja gente, me deixa em paz. Eu não posso fazer um ritual religioso na minha loja?"
A mulher, no entanto, se recusa a ouvir e ameaça tomar providências. O comerciante então decide filmar a própria reação para provar a agressão gratuita que sofria.
Leia também: Intolerância religiosa no Brasil: Disque 100 registra 2.774 denúncias entre 2025 e 2026
O significado sagrado da farofa e a saudação a Exu
Para as religiões de matriz africana, como o Candomblé e Umbanda, a farofa de dendê ou de azeite é um elemento ritualístico poderoso. Diferente do que o senso comum preconceituoso imagina, não se trata de um "ataque" ou "feitiço do mal".
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Exu não é o "diabo": Nas tradições iorubás, Exu é o mensageiro, o guardião das encruzilhadas, da comunicação e do movimento. É a primeira entidade a ser saudada em qualquer ritual.
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A farofa como oferenda: Jogar farofa na rua é uma forma de "alimentar" a terra, agradecer e pedir licença. É um ato de conexão com a ancestralidade e de abertura de caminhos para prosperidade e proteção.
O ato de Felipe foi um gesto privado de devoção, realizado em frente ao próprio negócio, sem afetar diretamente ninguém. A acusação da vizinha parte de um lugar de desconhecimento e, principalmente, de intolerância religiosa.
O desabafo de Felipe: "Não vou me calar diante do preconceito"
Na legenda do vídeo postado em sua rede social pessoal, Felipe Pimentel escreveu um texto contundente.
"Hoje venho aqui não apenas como comerciante, mas como Babalorixá Felipe de Airá. No dia 9 de abril de 2026, fui alvo de intolerância religiosa ao exercer minha fé em frente ao meu próprio espaço de trabalho. Um ato sagrado foi desrespeitado e distorcido com acusações ofensivas e preconceituosas."
Ele conclui com um pedido de reflexão: "Vivemos em um país onde a fé deve ser livre. Esse vídeo não é apenas um desabafo, é também um posicionamento contra a intolerância religiosa e a favor do respeito. Axé, respeito e consciência."
Intolerância religiosa no Brasil: Um crime silencioso (e frequente)
Infelizmente, o caso de Felipe não é isolado. O Brasil lidera rankings de denúncias de intolerância religiosa, com ataques majoritariamente direcionados a terreiros de Umbanda e Candomblé.
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O que diz a lei: A Constituição Federal garante a liberdade de crença (Art. 5º, VI). A Lei 7.716/89 define como crime punível com reclusão de 1 a 3 anos e multa o ato de "praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de religião".
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Onde denunciar: Vítimas devem procurar a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) ou a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (Disque 100).
A confusão entre "oferenda" e "macumba" é o maior termômetro do preconceito estrutural. Enquanto uma vizinha vê um ataque, Felipe vê sua alma e sua história.
"O que para muitos pode ser desconhecido, para mim é sagrado, ancestral e digno de respeito."
— Felipe Pimentel, Babalorixá Felipe de Airá.
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