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Saúde & Bem Estar

Planta mãe-de-milhares, usada no candomblé, é alvo de pesquisa científica contra o câncer

Redação Blé NewsRedação Blé News
17 de abril de 2026 às 17:22· Atualizado em 17/04/2026 às 17:24

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Planta medicinal usada no candomblé entra no radar da ciência no combate ao câncer
Planta medicinal usada no candomblé entra no radar da ciência no combate ao câncerReprodução

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Estudo da Uerj e Unirio investiga a Kalanchoe. Será que a tradição pode levar a uma terapia mais acessível contra a doença?

Mais de 21,3 milhões de pessoas no mundo vivem com algum tipo de câncer — e o dado mais duro vem da Organização Mundial da Saúde: menos da metade deve sobreviver. Em meio a esse cenário, uma nova perspectiva começa a ganhar espaço fora do eixo tradicional da ciência. Dos terreiros de candomblé, onde o cuidado é prática ancestral, surge um conhecimento que agora chama a atenção de pesquisadores. Estudos conduzidos pela Uerj e da Unirio investigam a Kalanchoe — conhecida como aranto ou mãe-de-milhares — planta usada há gerações em rituais de cura. Publicada na The Conversation Brasil, a pesquisa aposta na etnofarmacologia como ponte entre tradição e tecnologia de ponta, levantando uma questão central: até que ponto os saberes ancestrais podem contribuir para terapias mais acessíveis e eficazes no combate ao câncer? À frente desse caminho está Lays Souza da Silva, biomédica que encontrou no candomblé não só inspiração, mas direção científica.

A dura realidade do câncer e a barreira do acesso

Na prática, a desigualdade ainda decide quem vive e quem espera por tratamento contra o câncer. A falta de recursos e a distância dos grandes centros se impõem como barreiras duras para quem precisa de diagnóstico rápido e tratamento digno.

É justamente nessa encruzilhada que os saberes ancestrais voltam a pulsar como resistência. O uso de plantas medicinais não aparece como solução milagrosa — e nem deve ser visto assim —, mas como um caminho legítimo, construído ao longo de gerações, que pode abrir novas possibilidades de cuidado e ampliar o olhar da própria medicina.

A etnofarmacologia entra como essa ponte necessária: conecta a ciência às tecnologias ancestrais, respeitando suas origens, seus contextos e seus guardiões. É sobre avançar sem apagar histórias — e reconhecer que, muitas vezes, a resposta também vem da raiz.

Saber ancestral: por que a Kalanchoe é estudada contra o câncer — Foto: Reprodução

Mãe-de-milhares: muito mais que uma planta ornamental 

Conhecida também como aranto, folha-da-fortuna ou, em iorubá, Àbàmòdá, a Kalanchoe pinnata (e sua parenta Kalanchoe daigremontiana) é um símbolo de resistência. Nos terreiros de matriz africana, o conhecimento sobre suas propriedades não é um "achismo popular". É um sistema sofisticado que articula corpo, território e espiritualidade. Reconhecer isso, segundo os pesquisadores, não é apenas ético, é um imperativo científico e político.

Leia também: Ataque a terreiro de Umbanda em São Bernardo do Campo expõe avanço da intolerância religiosa

O que a ciência já descobriu sobre a Kalanchoe? 

Longe de ser apenas um chá de "avó", a planta já tem respaldo em diversas evidências. Estudos mostram que extratos de Kalanchoe pinnata têm potencial antinociceptivo (contra dor) e anti-inflamatório, explicando seu uso tradicional para inchaços e feridas.

Ação anti-inflamatória comprovada: Pesquisas com extratos aquosos e etanólicos da planta demonstraram redução de citocinas inflamatórias (como IL-1β e TNF-α) e até mesmo a promoção da cicatrização por meio da angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos).

Mas o ponto mais impressionante vem da Kalanchoe daigremontiana.

O achado no laboratório da Uerj 

No Labmut, da Uerj, os pesquisadores analisaram a composição química de extratos aquosos da planta — ou seja, o mesmo tipo de preparo usado nos chás e infusões tradicionais. O resultado foi uma rica diversidade de compostos bioativos, como bufadienolídeos e flavonoides, com potencial farmacológico de baixa toxicidade.

Mais importante: esses extratos mostraram ação antitumoral seletiva em células de câncer de pele (JB6 Cl41), colo do útero (HeLa), ovário (SKOV-3), mama (MCF-7) e melanoma (A375). A ação acontece modulando genes ligados à morte celular das células tumorais, sem afetar as saudáveis da mesma forma.

Do saberes ancestral ao futuro sustentável 

Este estudo não é um convite ao uso indiscriminado de plantas medicinais. Pelo contrário: ele acende um alerta sobre a importância do cuidado e da pesquisa séria. A virada está em outro ponto — a ciência de ponta, com tecnologias como cromatografia e espectrometria de massas, começa a reconhecer aquilo que os saberes tradicionais sempre sustentaram: não se trata de algo “pré-científico”, mas de um conhecimento potente, que merece ser investigado com respeito.

Mesmo diante dos possíveis benefícios, o alerta é claro:

“Existe uma tendência de acreditar que tudo que é natural é inofensivo, mas não é bem assim… todos os anos são registrados diversos casos de intoxicação por plantas no país.”

Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) reforçam essa realidade: cerca de 1.500 casos de intoxicação por plantas são registrados anualmente no Brasil. O recado é direto — o uso precisa ser feito com responsabilidade, orientação e aprofundamento científico.

Ao unir métodos científicos rigorosos com a medicina ancestral, abre-se caminho para terapias mais acessíveis e justas, especialmente para populações historicamente invisibilizadas. A pesquisa, financiada por Faperj, CNPq e Capes, representa um avanço alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), mostrando que preservar a biodiversidade e promover justiça social caminham lado a lado com a inovação farmacêutica.

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