"SOU DO MUNDO, SOU MINAS GERAIS" — Bituca é homenageado com mural no centro de BH

20ª edição da Fábrica de Graffiti traz uma pintura especial de 1600 m² do muralista Kaka Chazz celebrando a vida e obra do cantor mineiro de Três Pontas.
A Avenida Álvares Cabral, nº 347, próximo à Rua Timbiras, no Centro de BH, foi o local escolhido para receber a empena de 1600 m², assinada pelo artista mineiro Kaká Chazz, que vai homenagear um dos maiores nomes da música brasileira: o nosso Bituca, Milton Nascimento.
A obra faz parte da 20ª edição da Fábrica de Graffiti que, desde 2019, é realizada com o objetivo de humanizar cidades e espaços industriais por meio do grafite e da cultura hip hop. Assim, muros cinzentos são substituídos por grandes painéis, trazendo cor e vida para o cotidiano das pessoas.
O mural trará a representação de diferentes tempos de Milton, com uma paleta de cores inspirada no pôr do sol mineiro para transmitir a beleza e o calor de Minas. Arabescos dourados vão fazer menção aos ornamentos barrocos de Aleijadinho e ao ouro, evocando a arte e cultura como nossas verdadeiras riquezas.
“Essa ideia nasceu há alguns anos, de uma admiração pela obra e pela trajetória do Milton Nascimento. Há cerca de quatro anos, decidimos transformar essa admiração em um projeto para homenagear um artista que me inspira e que continua inspirando tantas pessoas no Brasil e no mundo. O conceito pretendia expressar um pouco da grandeza e da importância que o Bituca tem para a nossa cultura. Apresentamos o projeto ao Roger Dee, que também tem uma trajetória ligada à música, ao hip-hop e ao Fábrica de Graffiti. Eles abraçaram a ideia e ajudaram a construir o caminho para que chegássemos até aqui”, explica Kaká.
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Para o muralista, Milton é um artista de sensibilidade rara, que sabe contemplar o mundo e transformá-lo em poesia. “Sua obra consegue falar sobre a natureza, as pessoas, a infância, a fé, as dores e as belezas da vida de uma maneira muito profunda e verdadeira. Eu o vejo como alguém que, mesmo diante das batalhas da vida, nunca deixou de seguir criando, inspirando e iluminando outras pessoas através da sua arte. É um artista que alcançou o mundo sem perder a capacidade de olhar para o humano”.
Kaká Chazz - Mural Milton Nascimento Três Pontas MG — Foto: Guilherme Brasil
Essa não é a primeira vez que Kaká Chazz homenageia o Bituca. Em março de 2025 ele criou um mural de 72 m² em Três Pontas, no Sul de Minas, cidade natal de ambos, que mistura duas fases da vida do artista, incluindo uma recriação da capa do álbum Nascimento (vencedor do Grammy em 1998) e uma foto mais recente. “Ela nasceu como uma forma de agradecimento. Como alguém que cresceu ali, sempre convivi com a presença do Milton no imaginário da cidade. Ele sempre mencionou Três Pontas e, de muitas formas, o interior também está presente em sua poesia”, conta Kaká, que completa:
“De alguma maneira, quis retribuir essa semente que ele lançou para nós. Quis presentear o povo da minha cidade com uma obra de arte e, ao mesmo tempo, valorizar as pessoas e os talentos que nascem no interior. Muitas vezes existe uma ideia de que os grandes centros são os únicos lugares de onde a arte e a criação podem surgir, e o Milton representa justamente o contrário. Ele mostra que é possível vir de um território pequeno no mapa e alcançar o mundo sem perder as próprias raízes”.
Segundo Kaká, homenagear o Milton novamente não é repetir uma homenagem. “O primeiro mural foi um presente para ele e para Três Pontas. Esse novo trabalho ganha outra dimensão: ao ocupar um edifício em Belo Horizonte, ele se abre para Minas Gerais e para o Brasil”, explica.
“Milton sempre será uma presença muito grande entre nós, e com essa obra gigante eu espero, através daquilo que sei fazer, me aproximar um pouco da dimensão e da luz que ele representa para tantas pessoas”, finaliza.
O presente foi recebido com alegria pelo cantor. Segundo Augusto Nascimento, filho do músico, a homenagem simboliza o vínculo entre Milton e Minas. “Sempre digo que meu pai merece todas as homenagens e honrarias deste mundo. Mas ver o rosto dele tomando as ruas de Belo Horizonte traz uma emoção muito particular. Não tem como pensar em Minas sem pensar em Milton Nascimento, Lô Borges e no Clube da Esquina. Através da música, eles acrescentaram muito à identidade e à cultura do povo mineiro”, conta.
Augusto comenta sobre a profunda admiração da família dele pela arte de rua. “Os cenários das duas últimas turnês que fizemos foram feitos pelos OSGEMEOS, gênios da arte urbana. E o Kaká Chazz é um artista que admiramos muito aqui em casa, desde que homenageou lindamente o meu pai em Três Pontas — homenagem que ele aprovou e adorou”, comenta.
A previsão é que a nova homenagem ao Bituca em BH possa ser vista pelo público de forma definitiva até o dia 26 de setembro.
Mural pintado em Contagem, MG — Foto: Divulgação/Fábrica de Graffiti
Colorindo espaços invisíveis
Em toda a sua trajetória, a Fábrica de Graffiti soma mais de 50 quilômetros grafitados, 300 artistas contratados, 800 novos artistas formados e a realização dos maiores murais de grafite de Minas Gerais e da Bahia (7 mil m² no total), e do maior da América Latina, em Barra Mansa, no Rio de Janeiro, com 8,5 mil m². A iniciativa também assina a maior empena grafitada do interior de Minas, com 1 mil m².
Segundo a produtora-executiva do Fábrica, Paula Mesquita, esse é um projeto que deixa legados. “Mesmo após o encerramento da produção, o impacto positivo deixado nas cidades que a gente atuou permanece por meio do bem-estar e da fruição artística para a população, com a própria pintura do grafite, assim como as novas perspectivas de vida e de trabalho proporcionadas pela arte e educação. Quando a gente fala de comunidades vulneráveis, próximas a ambientes industriais, falamos de pessoas que, às vezes, nunca foram a um museu e não entendem a importância da arte. O impacto vai muito além do que a gente pode compreender”.
Paula Mesquita explica que esse é um projeto que trabalha em locais descentralizados. “A primeira importância é levar essas ações para lugares que muitas vezes não são vistos. A maioria tende a acontecer no centro e é óbvio que tem mais visibilidade para o projeto. Mas quando você descentraliza, vai em lugares que, muitas vezes, não são alcançados. Então assim, a importância é chegar até a ponta, é chegar aonde não chega e é mostrar oportunidades e perspectivas que talvez não tivessem ou que não eram tão fomentadas nesses lugares”.
Percorrendo municípios industriais de seis estados do Brasil, o projeto já passou por Contagem, MG (2019 e 2024); Feira de Santana, BA (2019); Barra Mansa, RJ (2020); João Monlevade, MG (2021, 2023 e 2024); Sabará, MG (2021); Rio Claro, SP (2022); Tramandaí, RS (2022); Bela Vista de Minas, MG (2022); Vespasiano, MG (2022); Juiz de Fora, MG (2023); Ermelino Matarazzo, SP (2023); Diadema, SP (2023); Joinville, SC (2024); Guarulhos, SP (2024); Itatiaiuçu, MG (2024); Castro, PR (2025) e, agora em 2026, chegou a BH.
Quase 250 artistas do Norte ao Sul do Brasil já trabalharam na Fábrica, que além de pintar milhares de quilômetros de muros de indústrias, empenas de prédios, praças, pistas de skate, quadras esportivas e até um vagão de trem abandonado, tem um forte braço educativo. Em cada edição, leva uma programação de introdução à arte urbana para estudantes de escolas públicas, que varia entre técnicas de escrita, desenho e pintura para grafite, técnicas de criação e colagem para lambe-lambe, passos de breakdance, história do movimento Hip Hop e outras atividades, sempre promovendo a reflexão sobre a importância sociocultural da arte de rua no Brasil e no mundo.
“A educação é um dos nossos pilares de sustentabilidade. Cada mural que deixamos é um convite para que as pessoas se conectem com a arte. Mas, ao ensinar arte urbana nas escolas, plantamos sementes que podem transformar vidas e comunidades inteiras”, destaca Paula Mesquita.
Todas as edições são realizadas por meio de Leis de Incentivo à Cultura, com o patrocínio de empresas parceiras, como ArcelorMittal, Belgo Bekaert Arames, Tigre, EDP Renováveis, MRS Logística, Açotubo e RHI Magnesita. A Fábrica de Graffiti colabora com diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, promovendo igualdade de gênero, geração de renda para artistas locais e sustentabilidade.



