Bets: como apostas endividaram e adoeceram o Brasil

Famílias perderam R$ 62,5 bilhões em 2025, enquanto especialistas alertam para dependência e danos à saúde.
“Um grande alívio.” Foi assim que Kaio*, de 42 anos, descreveu o sentimento ao saber da decisão de proibir as bets no Brasil. Para ele, o fim das plataformas representa a possibilidade de tentar reconstruir uma vida marcada por dívidas, perdas financeiras e dependência em apostas.
Nos últimos seis anos, Kaio perdeu o carro, a casa e o emprego. Hoje, vive sozinho em um dormitório no interior de Goiás e chegou a se afastar da família por medo de cobranças relacionadas a dívidas com agiotas. Neste ano, procurou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde participa de grupos terapêuticos e consultas médicas.
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A história dele ajuda a dimensionar um problema que deixou de ser apenas financeiro. Em 2025, as famílias brasileiras tiveram uma perda líquida estimada em R$ 62,5 bilhões com as bets. No mesmo período, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações via Pix.
Os números aparecem justamente quando o país entra em uma nova fase da discussão sobre as apostas online. Em 25 de setembro, foi publicada a Medida Provisória nº 1.394, que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no território nacional.
Pela medida, os apostadores podem retirar voluntariamente os valores disponíveis até 5 de outubro. A partir de 6 de outubro, sites e aplicativos deverão sair do ar.
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Bets e o impacto financeiro nas famílias
O valor de R$ 62,5 bilhões representa a diferença entre o dinheiro colocado nas plataformas e o que retornou aos apostadores em forma de prêmios. O cálculo faz parte do Boletim Fiscal dos Estados, elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) com base em dados de pagamentos.
O levantamento aponta que as perdas equivalem a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das famílias.
O volume de dinheiro movimentado também chama atenção. No período analisado, as bets movimentaram quase R$ 351 bilhões por meio do Pix, mostrando como o sistema de pagamentos instantâneos se tornou uma das principais portas de entrada para as apostas.
Mais do que movimentar dinheiro, porém, as plataformas passaram a fazer parte da rotina financeira de milhões de brasileiros.
A discussão sobre o impacto econômico das apostas ganhou ainda mais força com pesquisas que relacionam o setor ao endividamento e à redução do consumo das famílias. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, estimou que as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025.
O efeito, portanto, não termina quando uma pessoa perde uma aposta. Ele pode aparecer na redução do dinheiro disponível para alimentação, contas, lazer, consumo e outras necessidades do cotidiano.
Quanto as famílias perderam com as apostas?
Os R$ 62,5 bilhões estimados pelo Comsefaz representam uma perda líquida, e não simplesmente o total de dinheiro depositado pelos brasileiros nas plataformas.
Essa diferença é importante para entender o tamanho do problema. O valor considera o que foi apostado menos aquilo que voltou aos usuários como prêmio.
Bets também se transformaram em problema de saúde pública
O impacto das apostas não ficou restrito às finanças.
Dados apresentados pelo Ministério da Saúde mostram crescimento expressivo da procura por atendimento relacionado a problemas com jogos e apostas. Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), citado pela Agência Brasil, estima em R$ 30,6 bilhões por ano o impacto financeiro dos danos à saúde associados às apostas online.
A conta inclui gastos relacionados a problemas como depressão, ansiedade e consequências associadas às mortes por suicídio.
Nos últimos cinco anos, a procura por atendimento no SUS relacionada à dependência em apostas e jogos de azar aumentou 140%.
Para especialistas, a facilidade de acesso é um dos fatores que tornam as apostas especialmente difíceis de interromper. Diferentemente de um cassino tradicional, o jogo está disponível no celular e pode ser acessado praticamente a qualquer hora.
“É um cassino dentro do seu bolso”, resumiu Luiz Carlos*, de 71 anos, integrante dos Jogadores Anônimos, em entrevista à Rádio Nacional.
A frase resume uma mudança importante no comportamento dos apostadores: não é mais necessário sair de casa para jogar. Basta abrir um aplicativo.
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Apostas online chegam aos adolescentes
O problema também alcançou crianças e adolescentes.
Uma pesquisa divulgada em setembro mostrou que 20,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio afirmaram já ter feito apostas online.
O levantamento ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas de todo o país. Entre crianças de até 11 anos, 9,5% disseram já ter apostado.
Os números colocam em evidência uma preocupação dos especialistas: a exposição precoce ao universo das apostas.
A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que os jovens são mais vulneráveis aos estímulos relacionados à recompensa porque as estruturas cerebrais responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação de riscos ainda estão em desenvolvimento.
Na prática, o adolescente pode experimentar intensamente a sensação de ganhar, mas ter mais dificuldade para interromper o comportamento.
Publicidade e a promessa de dinheiro rápido
Outro ponto levantado por especialistas é a forma como as apostas foram apresentadas ao público.
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que pessoas em situação de vulnerabilidade foram expostas a mensagens que associavam as bets à possibilidade de obter renda rápida.
Segundo ela, esse tipo de comunicação pode atingir principalmente pessoas que procuram uma solução financeira imediata.
A legislação brasileira já havia criado mecanismos de proteção aos usuários considerados compulsivos. Entre as regras estava a previsão de bloqueio de pessoas identificadas com comportamento problemático.
Relatos e entrevistas publicados pela Agência Brasil, porém, apontaram questionamentos sobre a efetividade desses mecanismos.
Kaio conta que recebia mensagens constantemente pelo celular. Para ele, a facilidade de acesso e os estímulos recebidos contribuíram para a continuidade das apostas.
Dependência pode exigir tratamento
Os especialistas ouvidos nas reportagens sobre o tema reforçam que a dependência em apostas pode exigir acompanhamento profissional.
Em muitos casos, a própria pessoa não reconhece imediatamente que perdeu o controle sobre o comportamento. Familiares e amigos podem perceber mudanças antes mesmo de o apostador admitir que existe um problema.
Entre os sinais de alerta estão o aumento das dívidas, isolamento social, alterações importantes de comportamento, ansiedade, desesperança e aumento do consumo de álcool.
Profissionais de saúde também alertam para falas relacionadas à morte ou à falta de vontade de continuar vivendo. Nesses casos, a orientação é procurar ajuda profissional imediatamente.
O Ministério da Saúde anunciou que pretende ampliar ações de busca ativa e acompanhamento de apostadores considerados contumazes após o encerramento das plataformas.
A estratégia inclui atendimento em saúde mental e utilização de canais do SUS para oferecer suporte a pessoas afetadas pelo problema, além de familiares.
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O que acontece com as bets agora?
A Medida Provisória nº 1.394 entrou em vigor em 25 de setembro e estabelece o encerramento das operações de apostas de quota fixa no país.
Os apostadores têm até as 23h59 de 5 de outubro para retirar voluntariamente os valores disponíveis nas plataformas. Depois disso, os saldos remanescentes deverão ser devolvidos por meio das instituições financeiras, conforme o calendário definido pela medida.
A partir de 6 de outubro, sites e aplicativos das plataformas deverão sair do ar.
A MP também prevê medidas de fiscalização contra plataformas que continuarem operando ilegalmente.
O fim das bets, porém, não encerra automaticamente os problemas deixados pelo período de expansão das apostas online.
As dívidas continuam existindo. Os impactos sobre famílias permanecem. E pessoas que desenvolveram dependência ainda precisam de tratamento.
A história de Kaio mostra justamente esse outro lado da discussão. Para quem perdeu dinheiro, patrimônio, trabalho e relações pessoais, o encerramento das plataformas pode representar o fim de uma porta de entrada para o jogo.
Mas a reconstrução da vida começa depois dela.
*Nome alterado para preservar a identidade do entrevistado.




