Sargento Salazar é criticado por “trolagem” com macumba

Vídeo publicado pelo vereador de Manaus mostra uma encenação para assustar assessor e reacende debate sobre preconceito religioso.
O vereador de Manaus e candidato a deputado federal pelo Amazonas Sargento Salazar (PL) foi alvo de críticas nas redes sociais após publicar um vídeo de “trolagem” envolvendo elementos associados às religiões de matriz africana. Na gravação, divulgada na quinta-feira (27), o político participa de uma encenação planejada para assustar o assessor Kidson Maia, afirmando que um integrante da equipe seria “macumbeiro” e faria uma suposta incorporação espiritual.
O vídeo, que ultrapassou dezenas de milhares de visualizações, mostra integrantes da equipe combinando a brincadeira enquanto o assessor estaria dentro de um carro. A reação registrada durante a encenação provocou repercussão e críticas pelo uso da expressão “macumba” e de referências religiosas como instrumento de medo e deboche.
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Sargento Salazar é criticado após vídeo de “trolagem”
No início da gravação, Salazar explica aos espectadores como seria feita a encenação. Segundo ele, o videomaker que estava no banco traseiro do veículo participaria da brincadeira para provocar a reação do assessor.
“Pra quem não sabe, o nosso videomaker aqui atrás… Ó, ele é macumbeiro e o Kidson tem pavor de macumba. E o macumbeiro aqui atrás vai fingir que tá pegando o santo, tá pegando caboco”, afirma o vereador no vídeo.
A fala se tornou um dos principais pontos das críticas. Nas redes sociais, usuários questionaram a associação de práticas e religiões de matriz africana a algo assustador, além do uso de termos que, dependendo do contexto, podem reforçar estigmas históricos.
A publicação repercutiu especialmente porque Umbanda e Candomblé ainda são frequentemente alvo de preconceito e intolerância no Brasil. Para críticos da gravação, transformar elementos religiosos em motivo de medo ou piada contribui para a manutenção de uma visão negativa sobre essas tradições.
“Macumba” é uma palavra com diferentes usos e significados históricos, mas frequentemente é utilizada de forma genérica e pejorativa para se referir às religiões de matriz africana.
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Câmera escondida registrou a reação do assessor
De acordo com a própria gravação, a equipe utilizou um óculos equipado com câmera para registrar a reação de Kidson Maia sem que ele soubesse que estava sendo filmado.
Durante a encenação, o videomaker, sentado no banco traseiro do carro, simula uma suposta incorporação espiritual. Salazar acompanha a situação e participa da brincadeira enquanto o assessor reage ao que acredita estar acontecendo.
Sargento Salazar é criticado após piada com religião — Foto: Reprodução/Instagram/@sargento_salazaroficial
A situação termina quando os integrantes da equipe começam a rir e revelam que tudo havia sido planejado. Na sequência, o vereador mostra que a reação do assessor havia sido registrada pela câmera usada durante a “trolagem”.
O episódio ganhou repercussão após páginas nas redes sociais compartilharem o conteúdo e questionarem o contexto da brincadeira. O debate foi além do vídeo e trouxe novamente à tona os limites entre humor, preconceito e discriminação.
Uso de “macumba” reacende debate sobre preconceito religioso
A palavra “macumba” possui uma trajetória histórica complexa no Brasil e não representa, por si só, uma única religião. No entanto, seu uso popular muitas vezes acontece como uma forma genérica de identificar — e, em alguns casos, desqualificar — práticas religiosas de origem africana.
Quando utilizada em um contexto de medo, ameaça ou deboche, a expressão pode reforçar estereótipos que há décadas atingem comunidades de terreiro.
A discussão também tem relevância no campo jurídico. A Lei nº 14.532/2023 promoveu alterações importantes na legislação brasileira relacionada ao racismo e à injúria racial, incluindo previsões que reforçam o enfrentamento à discriminação baseada em religião.
A legislação prevê que situações de constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida relacionadas à religião podem ser analisadas dentro do contexto de práticas discriminatórias, dependendo das circunstâncias de cada caso.
Além disso, o ordenamento jurídico brasileiro estabelece proteção à liberdade religiosa e prevê responsabilização para condutas discriminatórias motivadas por elementos religiosos.
Racismo religioso e “brincadeira”: onde está o limite?
O debate sobre o vídeo também se conecta a uma discussão mais ampla sobre o chamado racismo recreativo, expressão utilizada para descrever situações em que manifestações preconceituosas são apresentadas como humor ou brincadeira.
Nos últimos anos, decisões judiciais e debates no Supremo Tribunal Federal têm reforçado que a alegação de humor não elimina automaticamente o potencial ofensivo ou discriminatório de uma conduta.
Em 2026, o STF voltou a discutir o tema ao analisar um caso envolvendo injúria racial e uma alegação de que a ofensa teria sido apenas uma brincadeira. Na decisão, o ministro Cristiano Zanin destacou que o humor não pode ser utilizado como justificativa para práticas que reforcem preconceitos.
Embora cada situação tenha suas particularidades e deva ser analisada individualmente, o debate chama atenção para uma questão importante: quando uma piada reforça um preconceito que já existe socialmente, seus efeitos podem ultrapassar a intenção declarada por quem a fez.
No caso do vídeo publicado por Salazar, as críticas não se concentram apenas na ideia de uma “trolagem”, mas na escolha de utilizar referências às religiões de matriz africana como elemento central para provocar medo.
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Religiões de matriz africana enfrentam intolerância histórica
As religiões de matriz africana fazem parte da formação cultural e religiosa do Brasil. Ainda assim, seus praticantes enfrentam episódios recorrentes de discriminação, ataques a espaços religiosos e estigmatização de símbolos, rituais e expressões de fé.
A associação dessas religiões a algo negativo, perigoso ou assustador é uma das manifestações mais antigas desse processo de marginalização.
O Supremo Tribunal Federal já reconheceu, em diferentes discussões, a existência de preconceitos estruturais direcionados às religiões de matriz africana e a importância da proteção constitucional à liberdade de crença e de culto.
Para comunidades de terreiro e entidades que atuam no combate à intolerância religiosa, combater esses estereótipos também passa pela forma como as religiões são retratadas na mídia, no entretenimento e nas redes sociais.
Por isso, situações apresentadas como humor podem gerar debates intensos quando envolvem grupos historicamente discriminados.
A discussão levantada pelo vídeo de Sargento Salazar acontece justamente nesse contexto. De um lado, está a alegação de que se tratava de uma brincadeira entre integrantes da equipe. Do outro, estão questionamentos sobre os impactos de utilizar símbolos e expressões de religiões historicamente perseguidas como ferramenta para causar medo ou provocar risadas.
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Blé News procurou Sargento Salazar para esclarecimentos
O Blé News procurou a assessoria do vereador Sargento Salazar para solicitar um posicionamento sobre o conteúdo do vídeo e as críticas relacionadas ao uso de elementos associados às religiões de matriz africana durante a “trolagem”.
Até a publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação do vereador e de sua equipe.
O episódio reforça um debate que continua atual no Brasil: a liberdade para fazer humor não elimina a necessidade de refletir sobre os preconceitos que uma brincadeira pode reproduzir.
Quando religiões de matriz africana são associadas ao medo, ao perigo ou ao motivo de chacota, a discussão deixa de ser apenas sobre um vídeo. Ela passa a envolver uma história de intolerância que ainda afeta milhares de brasileiros e brasileiras que vivem sua fé nos terreiros e em outros espaços religiosos.





