Casa de Oxumarê festeja 190 anos e 60 de iniciação de Babá Pecê

Terreiro reúne autoridades, sacerdotes e pesquisadores neste sábado (15), em Salvador, para celebrar quase dois séculos de história.
A Casa de Oxumarê, um dos mais antigos e tradicionais terreiros de Candomblé da Bahia, celebra neste sábado (15) seus 190 anos de história, em uma programação que começa às 8h, na Federação, em Salvador. Reconhecido como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan, o terreiro recebe autoridades, pesquisadores, lideranças religiosas e representantes de diferentes regiões do país. Entre os nomes anunciados estão a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues. A celebração também marca os 60 anos de iniciação de Sivanilton da Encarnação da Mata, Babá Pecê de Oxumarê, além de destacar a importância da casa para a preservação da ancestralidade africana, da cultura afro-brasileira e dos saberes do Candomblé.
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Casa de Oxumarê celebra 190 anos de resistência e memória
Mais do que uma festa de aniversário, os 190 anos da Casa de Oxumarê representam um marco na história das religiões de matriz africana no Brasil.
Fundada em 1836, segundo a tradição histórica adotada pela casa, a instituição atravessou diferentes períodos da história brasileira preservando rituais, conhecimentos e formas de transmissão da ancestralidade.
Sua trajetória está ligada à própria formação do Candomblé no Brasil e à resistência de africanos escravizados que mantiveram práticas culturais e religiosas mesmo diante da violência e da perseguição.
A própria Casa de Oxumarê registra que sua história remonta ao final do século XVIII e ao início do século XIX, tendo como fundador Tàlábí, sacerdote de origem africana ligado ao culto a Sakpata.
Ao longo dos anos, a casa se consolidou como uma das referências do Candomblé baiano e como uma das chamadas casas matrizes da religiosidade afro-brasileira.
Esse reconhecimento também ultrapassou os limites da comunidade religiosa.
Em 2002, a Fundação Cultural Palmares reconheceu a Casa de Oxumarê como território cultural afro-brasileiro. Em 2004, o terreiro foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).
Em 2013, o Conselho Consultivo do Iphan aprovou o tombamento do Ilê Axé Oxumarê como patrimônio cultural brasileiro. A inscrição nos Livros do Tombo ocorreu posteriormente, consolidando a proteção nacional do terreiro.
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Patrimônio cultural e tradição afro-brasileira
O reconhecimento do Iphan não se limita à estrutura física do terreiro.
A instituição destacou a relevância da Casa de Oxumarê para a resistência do povo negro e para a disseminação da cultura africana no Brasil. O tombamento também integra uma política de reconhecimento de espaços fundamentais para a formação da identidade cultural brasileira.
Casa de Oxumarê celebra 190 anos de história em Salvador — Foto: Reprodução
É justamente nesse ponto que a celebração dos 190 anos ganha outra dimensão.
A casa é, ao mesmo tempo, espaço religioso, território de memória e lugar de transmissão de saberes entre gerações.
Durante quase dois séculos, sacerdotes e sacerdotisas ajudaram a manter vivos conhecimentos relacionados aos orixás, à música, à dança, aos rituais, à oralidade e às relações comunitárias.
Esse patrimônio também se espalhou para além da Bahia.
Casa de Oxumarê e a expansão do Candomblé para São Paulo
A história da Casa de Oxumarê também ajuda a entender como fundamentos do Candomblé de tradição baiana chegaram a outras regiões brasileiras.
Entre as presenças previstas na celebração estão sacerdotes e sacerdotisas de diferentes casas de axé, incluindo representantes ligados historicamente à trajetória da Casa de Oxumarê e à expansão do Candomblé para o Sudeste.
Entre os nomes citados estão Luiz Carlos Obalodé, presidente do Ilê Oiá Messã Orum, conhecido como Casa de Pai Bobó; Mãe Clarinha de Iansã; e Mãe Luizinha do Axé Batistini.
A relação ganha um significado especial quando se observa a trajetória de Pai Bobó de Iansã e Pai Pérsio de Xangô, apontados como iniciados no chão do Axé Oxumarê e ligados à transmissão desses fundamentos para São Paulo.
Essa circulação de conhecimentos entre Bahia e Sudeste faz parte de uma história maior de formação e expansão das comunidades de Candomblé no Brasil.
Em São Paulo, casas religiosas formadas por sacerdotes ligados a linhagens baianas passaram a desempenhar papel importante na preservação e continuidade de fundamentos trazidos do Recôncavo Bahiano e e principalmente de Salvador.
Por isso, a celebração deste sábado também pode ser entendida como um encontro de diferentes gerações e territórios do Candomblé.
É uma oportunidade para olhar para a Casa de Oxumarê não apenas como um terreiro localizado em Salvador, mas como parte de uma rede histórica de transmissão de saberes.
Leia também: Casa do Pai Bobó pode ser 1º terreiro no estado de São Paulo protegido pelo Iphan
Babá Pecê completa 60 anos de iniciação
A programação dos 190 anos também presta homenagem a uma trajetória individual que se tornou profundamente ligada à história recente da casa.
Sivanilton da Encarnação da Mata, o Babá Pecê de Oxumarê, completa 60 anos de iniciação no Candomblé.
Babá Pecê de Oxumarê, sacerdote da Casa de Oxumarê — Foto: Reprodução
À frente da Casa de Oxumarê desde 1991, Babá Pecê construiu uma atuação marcada pela defesa da liberdade religiosa, pela preservação dos fundamentos do terreiro e pelo diálogo com pesquisadores, universidades e instituições públicas.
Sua trajetória também está relacionada a iniciativas sociais e culturais desenvolvidas pela Casa de Oxumarê.
A instituição mantém projetos voltados à comunidade e atua na defesa do respeito às religiões de matriz africana e no enfrentamento à intolerância religiosa.
A marca dos 60 anos de iniciação, portanto, se conecta diretamente aos 190 anos da casa: são duas temporalidades diferentes, mas unidas pela transmissão de conhecimento e pela continuidade do axé.
190 anos de história da Casa de Oxumarê + 60 anos de iniciação de Babá Pecê: uma celebração de memória, ancestralidade e continuidade.
Programação dos 190 anos acontece neste sábado
A programação comemorativa acontece neste sábado (15), na sede da Casa de Oxumarê, no bairro da Federação, em Salvador.
O primeiro momento está previsto para começar às 8h, com uma cerimônia cívica e a participação de autoridades, pesquisadores, lideranças religiosas e representantes de diferentes regiões.
A programação divulgada também prevê a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes, e do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT).
À noite, a celebração segue para um momento religioso dedicado aos orixás e aos 190 anos do Ilê Òṣùmàrè Arákà Àṣẹ Ògòdó.
A programação religiosa está prevista para começar às 20h, com o Ajodún, reunindo a comunidade e convidados em torno da celebração da trajetória da casa.
A Casa de Oxumarê informa que a programação comemorativa é aberta ao público.
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Uma história que continua sendo escrita
Celebrar 190 anos de uma casa de Candomblé é também lembrar que a preservação cultural não acontece apenas por meio de documentos ou prédios históricos.
Ela acontece pela oralidade, pelos rituais, pelos vínculos comunitários e pela transmissão dos conhecimentos de uma geração para outra.
A Casa de Oxumarê atravessou períodos de perseguição às religiões de matriz africana e chegou ao século XXI reconhecida como patrimônio cultural brasileiro.
Seu percurso ajuda a contar uma parte fundamental da história negra e afro-brasileira no país.
E a presença de sacerdotes, sacerdotisas, pesquisadores, autoridades e representantes de diferentes terreiros reforça justamente essa dimensão coletiva.
A celebração dos 190 anos, portanto, não olha somente para o passado.
Ela também coloca em evidência o futuro de uma tradição que continua sendo transmitida, reinventada e protegida por novas gerações.
No sábado, a Federação será palco de um encontro que reúne ancestralidade, Candomblé, patrimônio cultural e memória afro-brasileira em torno de uma história que já atravessa quase dois séculos.





