Casa do Pai Bobó pode ser 1º terreiro no estado de São Paulo protegido pelo Iphan

Técnicos do Iphan iniciaram estudos em Guarujá; reconhecimento pode preservar uma história iniciada há quase 70 anos.
A Casa do Pai Bobó, o Ilê Oiá Messã Orum, em Vicente de Carvalho, no Guarujá, litoral de São Paulo, pode se tornar o primeiro terreiro do estado reconhecido como patrimônio pelo governo federal. Técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) estiveram no local na última quarta-feira (5) para iniciar os estudos que vão avaliar a relevância histórica, cultural e religiosa do espaço. Fundado por José Bispo dos Santos, o Pai Bobó de Iansã, o terreiro mantém uma trajetória ligada à expansão do Candomblé de tradição baiana para o Sudeste. O processo ainda está no início e deverá envolver novas visitas, pesquisas e levantamento de informações para definir se o reconhecimento será como patrimônio imaterial ou se também contemplará elementos materiais do terreiro.
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A visita dos técnicos do Iphan representa uma etapa inicial de um processo que poderá reconhecer oficialmente a importância da Casa do Pai Bobó para a história das religiões de matriz africana no Brasil.
O encontro reuniu representantes do Instituto, Luiz Carlos Obalodé, presidente do Ilê, além de representantes das secretarias municipais de Direitos Humanos e Cidadania e de Cultura.
Casa do Pai Bobó entra no radar do patrimônio nacional — Foto: Reprodução/Facebook/@ogamluisobalode
Neste momento, ainda não existe uma decisão definitiva sobre o tombamento. O trabalho consiste justamente em reunir informações capazes de subsidiar a análise do patrimônio associado ao terreiro.
A avaliação poderá considerar diferentes dimensões da casa, incluindo sua trajetória religiosa, sua importância cultural e sua relação com a memória da comunidade do Candomblé.
Mais do que a preservação de um endereço, o processo coloca em discussão a proteção de uma memória construída ao longo de décadas.
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O que os estudos do Iphan vão avaliar
O processo deverá contar com novas visitas de especialistas, pesquisas históricas e levantamento de informações sobre o terreiro e sua tradição.
Uma das questões a serem definidas é se o eventual reconhecimento ficará restrito à dimensão imaterial, relacionada aos saberes, práticas, tradições e referências culturais, ou se também poderá abranger aspectos materiais do espaço.
Essa distinção é importante porque o patrimônio cultural pode envolver tanto elementos físicos quanto conhecimentos, celebrações, práticas e modos de fazer transmitidos entre gerações.
No caso da Casa do Pai Bobó, a história do Ilê Oiá Messã Orum está diretamente ligada à expansão do Candomblé de tradição baiana para o Sudeste e à formação de diferentes gerações de sacerdotes, sacerdotisas, filhos e filhas de santo.
Quem foi Pai Bobó de Iansã?
José Bispo dos Santos, conhecido como Pai Bobó de Iansã, foi uma das figuras importantes na expansão do Candomblé de tradição baiana para o Sudeste a partir da década de 1950.
Nascido na Bahia, Pai Bobó chegou ao litoral paulista durante esse período e, em 1957, fundou o Ilê Oiá Messã Orum, terreiro que posteriormente passou a ser conhecido como Casa do Pai Bobó, em Vicente de Carvalho, no Guarujá.
Pai Bobó de Iansã — Foto: Reprodução/Facebook/Acervo do Ilê Axé Oya Messã Orun
Sua trajetória está ligada a um momento importante da história do Candomblé em São Paulo, quando sacerdotes, sacerdotisas e comunidades religiosas vindos da Bahia contribuíram para a formação e consolidação de terreiros no estado.
O sociólogo Reginaldo Prandi, referência nos estudos sobre as religiões afro-brasileiras, analisa esse processo em sua obra Os Candomblés de São Paulo: a velha magia na metrópole nova. O estudo acompanha a expansão do Candomblé da Bahia para o Sudeste e ajuda a contextualizar a atuação de lideranças que participaram da construção dessa história religiosa em São Paulo.
Nesse cenário, Pai Bobó de Iansã aparece como um dos pioneiros ligados à expansão e consolidação do Candomblé no território paulista, especialmente por sua atuação no litoral de São Paulo.
Sua importância, porém, não se resume à fundação de um terreiro. A trajetória de Pai Bobó está relacionada à preservação de tradições religiosas, à transmissão de conhecimentos e à formação de uma memória do Candomblé paulista que atravessou gerações.
Pai Bobó de Iansã morreu em 1993, mas seu legado permanece presente na Casa do Pai Bobó e na memória religiosa e cultural do litoral paulista.
Hoje, quase sete décadas após a fundação do Ilê Oiá Messã Orum, a história de Pai Bobó volta ao centro das atenções com os estudos iniciados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para avaliar o reconhecimento patrimonial da casa.
Mais do que preservar um espaço físico, a discussão sobre patrimônio também coloca em evidência a história de uma tradição religiosa e de seus protagonistas, que ajudaram a construir a presença do Candomblé no estado de São Paulo.
Leia também: Fé, memória e resistência: CONPRESP aprova tombamento de quatro terreiros
A importância da Casa do Pai Bobó para o Candomblé
A história do Ilê Oiá Messã Orum, a Casa do Pai Bobó, ultrapassa os limites de Guarujá e se conecta diretamente à trajetória de expansão e consolidação do Candomblé no estado de São Paulo.
Fundado por Pai Bobó de Iansã, o terreiro se tornou referência para diferentes gerações do povo de santo. Ao longo de sua trajetória, Pai Bobó iniciou centenas de filhos e filhas de santo, contribuindo para a formação de novas lideranças religiosas e para a continuidade de conhecimentos e tradições do Candomblé.
A memória do sacerdote permanece presente em diversas casas de axé espalhadas por São Paulo e por outras regiões do Brasil. Por esse motivo, o Ilê Oiá Messã Orum é lembrado por integrantes da comunidade religiosa como uma casa matriz na trajetória de muitos filhos e filhas de santo que posteriormente se tornaram sacerdotes e sacerdotisas.
Entrada do terreiro Ilê Oiá Messã Orum, Casa do Pai Bobó de Iansã — Foto: Reprodução/Divulgação/Prefeitura de Guarujá
Entre os nomes ligados a essa linhagem religiosa estão Pai Adelode de Oxum, Mãe Clarinha de Iansã e Pai Cido de Oxum, além de outras lideranças que deram continuidade aos ensinamentos recebidos e ajudaram a ampliar a presença do Candomblé em diferentes territórios.
Essa rede de casas e lideranças evidencia que a importância do terreiro não está apenas em sua existência física, mas também no conhecimento religioso transmitido ao longo das gerações.
A trajetória de Pai Bobó está inserida em um período importante da história do Candomblé no Sudeste, marcado pela chegada de sacerdotes e comunidades religiosas provenientes da Bahia e pela criação de novos espaços de culto, preservação cultural e formação religiosa.
Nesse contexto, a Casa do Pai Bobó representa uma parte da memória da transmissão de saberes, tradições e práticas religiosas de matriz iorubá que contribuíram para a construção do Candomblé paulista.
Por isso, um eventual reconhecimento da Casa do Pai Bobó como patrimônio pelo governo federal teria um significado que vai além da proteção de um imóvel.
O reconhecimento poderia representar também a valorização de uma história coletiva construída por sacerdotes, sacerdotisas, filhos e filhas de santo, comunidades de terreiro e gerações responsáveis pela preservação e transmissão dos conhecimentos do Candomblé.
É uma memória que não está apenas nas paredes do terreiro, mas também nas casas de axé que nasceram dessa tradição e nos descendentes religiosos que continuam mantendo vivo o legado de Pai Bobó de Iansã
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Tombamento ainda não foi definido
É importante destacar: a Casa do Pai Bobó ainda não foi tombada pelo governo federal.
A visita dos técnicos marca o início dos estudos. Antes de qualquer decisão, serão necessárias pesquisas, levantamentos e avaliações técnicas.
Também será necessário definir qual dimensão do patrimônio poderá ser reconhecida, caso o processo avance.
Por isso, neste momento, o mais preciso é dizer que o terreiro pode se tornar o primeiro do estado reconhecido pelo governo federal, e não que o tombamento já esteja confirmado.
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Uma história que continua viva
Fundada na década de 1950, a Casa do Pai Bobó atravessou gerações e permanece como um espaço de referência para o Candomblé paulista.
Agora, a possibilidade de reconhecimento patrimonial coloca essa história no centro de uma discussão ainda maior sobre memória, cultura, ancestralidade e diversidade religiosa no Brasil.
Enquanto os estudos avançam, a Casa do Pai Bobó continua preservando uma trajetória iniciada por Pai Bobó de Iansã e mantida pelas gerações que deram continuidade à sua tradição religiosa.
Mais do que um espaço físico, o terreiro representa uma memória viva do Candomblé e da presença das religiões de matriz africana na construção cultural do estado de São Paulo.
O que está acontecendo agora?
Técnicos do Iphan iniciaram estudos na Casa do Pai Bobó, em Guarujá. O processo ainda está em fase inicial e deverá avaliar quais elementos da história e do patrimônio do terreiro poderão ser reconhecidos.





