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Fé, memória e resistência: CONPRESP aprova tombamento de quatro terreiros

Alexandro OliverAlexandro Oliver
01 de junho de 2026 às 21:53· Atualizado em 01/06/2026 às 23:36

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CONPRESP aprova tombamento de 4 terreiros em SP
CONPRESP aprova tombamento de 4 terreiros em SPReprodução/Canva

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Entre tambores, ancestralidade e resistência, terreiros tradicionais do candomblé passam a ter sua memória protegida como patrimônio vivo da capital paulista.

Com o som dos atabaques, folhas sagradas, fé e ancestralidade ecoando pelos terreiros, quatro importantes casas de religiões de matriz africana passaram a ter suas histórias oficialmente protegidas pela cidade de São Paulo. O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (CONPRESP) aprovou, durante a 844ª Reunião Ordinária realizada na última segunda-feira (25), o tombamento de tradicionais espaços do candomblé e das culturas afro-brasileiras na capital paulista. A decisão reconhece não apenas o valor físico e arquitetônico dessas casas, mas principalmente a força espiritual, cultural, religiosa e comunitária que atravessa gerações dentro dos terreiros. Foram reconhecidos o Ilê Dara Asè Òsún Eyin, em Sapopemba; o Ilê Asé Omo Igbo Omi, em Ermelino Matarazzo; o Terreiro de Candomblé Abassá Oxum Oxóssi, no Cangaíba; e o Terreiro de Candomblé Santa Bárbara, na Brasilândia, este último por meio de tombamento ex-officio. Segundo o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), os processos levaram em consideração a preservação das práticas ancestrais, dos símbolos sagrados, da memória negra e da atuação dessas comunidades no combate ao racismo religioso e na manutenção viva das tradições afro-brasileiras em São Paulo.

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A decisão do CONPRESP marca um momento histórico para as religiões de matriz africana na cidade de São Paulo. Mais do que preservar construções físicas, o tombamento reconhece os terreiros como espaços vivos de memória, ancestralidade, acolhimento e resistência cultural.

As resoluções aprovadas destacam a importância das práticas religiosas afro-brasileiras para a formação cultural do país e reforçam o papel dessas casas na preservação das tradições que atravessam gerações.

Além da dimensão espiritual, os terreiros também exercem funções sociais importantes dentro das comunidades periféricas da capital paulista. Muitos desses espaços atuam como centros de apoio comunitário, formação cultural e fortalecimento identitário.

O reconhecimento oficial também representa um avanço simbólico no enfrentamento à intolerância religiosa, tema que ainda gera preocupação entre lideranças religiosas e movimentos negros.

“Os terreiros são patrimônios vivos da cultura afro-brasileira e da memória da cidade.”

Conheça os quatro terreiros reconhecidos pelo CONPRESP

Ilê Dara Asè Òsún Eyin: a história de fé, cultura e ancestralidade de Pai Cido de Oxum

Ilê Dara Asè Òsún EyinPai Cido de Oxum fundador do Ilê Dara Asè Òsún Eyin — Foto: Ekodidé

A trajetória do Pai Cido de Oxum começou em 1977, quando iniciou sua caminhada sacerdotal em uma casa simples na Rua Antônio Bitencourt, na Vila Prudente, em São Paulo. Foi nesse espaço, marcado pela fé e pela resistência, que nasceram os primeiros passos de um legado que atravessaria gerações dentro do candomblé.

Após quatro anos, Pai Cido deu continuidade à construção de sua missão espiritual ao estabelecer a Casa de Oxum na Rua Francisco do Amaral, na Vila Lais. Desde o início de sua trajetória como sacerdote, sua maior preocupação sempre foi garantir a continuidade de seu axé e a preservação da tradição para as futuras gerações. 

Lutei para ter um chão para Oxum. Sempre pensei em um espaço onde aqueles que são meus filhos possam cuidar e zelar por Oxum e pelos orixás desta casa”, relembra Pai Cido.

Fundado por volta da década de 1980, o Ilê Dara Asè Òsún Eyin, localizado na região de Sapopemba, na Zona Leste de São Paulo, consolidou-se como uma das principais referências do candomblé ketu na capital paulista. Mais do que um espaço religioso, o terreiro tornou-se símbolo de acolhimento, ancestralidade e preservação da cultura afro-brasileira.

Além da atuação espiritual, Pai Cido também se destacou pela valorização e difusão da cultura afro-brasileira por meio de participações em rádios, jornais, livros e registros sonoros ligados aos cânticos dos orixás, contribuindo diretamente para o fortalecimento da memória e da identidade dos povos de terreiro.

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O reconhecimento do Ilê Dara Asè Òsún Eyin também representa a valorização de décadas de contribuição cultural, educativa e social realizadas pela comunidade religiosa no território, reafirmando a importância dos terreiros como espaços de resistência, saber ancestral e preservação da história negra no Brasil.

Ilê Asé Omo Igbo Omi une ancestralidade, acolhimento social e preservação da tradição iorubá

Ilê Asé Omo Igbo OmiMãe Izis de Logunedé dirigente do Ilê Asé Omo Igbo Omi — Foto: Reprodução/Instagram/@ile_ase_omo_igbo_omi

Localizado em Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo, o Ilê Asé Omo Igbo Omi, liderado por Mãe Izis de Logunedé, foi reconhecido pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) por sua importante contribuição à preservação de elementos da tradição iorubá no município.

Em contato com a dirigente espiritual para compreender o significado desse reconhecimento, o Blé News ouviu uma declaração marcada pela emoção e pelo sentimento de pertencimento. Para Mãe Izis, a conquista simboliza a continuidade de uma trajetória construída ao longo de muitos anos. 

“Esta conquista representa uma história construída por anos, um legado que se perpetua e fica para as novas gerações”, afirmou à reportagem.

Além de sua atuação religiosa, o Ilê Asé Omo Igbo Omi desenvolve diversos projetos sociais voltados ao fortalecimento das famílias e ao acolhimento de mulheres. As iniciativas promovem debates sobre o cuidado feminino e o enfrentamento à violência contra a mulher, tema que tem ganhado cada vez mais relevância diante do aumento dos casos registrados nos últimos anos.

Em entrevista exclusiva ao repórter Alexandro Oliver, Mãe Izis também revelou que o terreiro está finalizando a elaboração de um projeto voltado à comunidade LGBTQIA+, iniciativa que vem sendo planejada há anos e que deverá ser implementada em breve no espaço.

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Um dos grandes diferenciais do Ilê Asé Omo Igbo Omi é sua arquitetura inspirada nos tradicionais compounds africanos, além da integração harmoniosa entre práticas do candomblé e da umbanda.

Segundo o DPH, a casa representa uma importante conexão entre a ancestralidade africana e a adaptação das práticas religiosas de matriz africana ao contexto urbano paulistano, reforçando seu valor cultural, histórico e social para a cidade de São Paulo. 

Mulheres negras e resistência religiosa ganham destaque

Abassá Oxum Oxóssi é tombado como Patrimônio Cultural de São Paulo e reforça resistência das tradições afro-brasileiras

Terreiro de Candomblé Abassá Oxum OxóssiMãe Caçulinha d’Oxum e a herdeira espiritual do Abassá Oxum Oxóssi, Mãe Kátia Luciana Sampaio — Foto: Reprodução/Instagram/@abassaoxumoxossioficial

Um dos mais tradicionais terreiros de candomblé da capital paulista, o Abassá Oxum Oxóssi, localizado no bairro do Cangaíba, na zona leste de São Paulo, teve seu valor histórico e cultural oficialmente reconhecido com o tombamento aprovado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (CONPRESP).

Fundado em 1966 pela yalorixá Olocun d’Oxum, conhecida como Mãe Caçulinha d’Oxum, o terreiro é uma das principais referências da Nação Angola e da tradicional Família Bate-Folha no estado de São Paulo. Desde o falecimento da fundadora, em 2016, a casa é conduzida por sua neta biológica e herdeira espiritual, Mam’etu Kutala Diamuganga, conhecida como Mãe Kátia Luciana Sampaio.

O tombamento representa uma importante vitória para a preservação da memória, da ancestralidade e das práticas religiosas afro-brasileiras. O parecer técnico que embasou a decisão destacou especialmente a trajetória histórica das mulheres negras na consolidação do candomblé paulista e sua contribuição para o fortalecimento das religiões de matriz africana na cidade de São Paulo.

Ao longo dos últimos anos, o Abassá Oxum Oxóssi esteve no centro de uma intensa disputa judicial envolvendo a posse do imóvel. A sucessora espiritual de Mãe Caçulinha enfrentou tentativas de despejo e ações de reintegração de posse movidas por herdeiros biológicos da fundadora. O caso mobilizou lideranças religiosas, movimentos sociais, parlamentares, instituições de defesa dos direitos humanos e integrantes da comunidade do terreiro.

Durante esse período, diversas manifestações públicas foram realizadas em defesa da permanência da casa, considerada um importante patrimônio religioso, cultural e social da população negra paulistana. Em 2022, a deputada estadual Leci Brandão apresentou um projeto de lei propondo o reconhecimento do Abassá Oxum Oxóssi como patrimônio cultural material e imaterial do Estado de São Paulo, fortalecendo o debate sobre a necessidade de proteção dos territórios tradicionais de matriz africana.

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Com a aprovação do tombamento municipal, o terreiro passa a contar com instrumentos legais de proteção patrimonial, garantindo a preservação de sua história e de seu legado para as futuras gerações.

A redação tentou contato com Mãe Kátia Luciana Sampaio para comentar a decisão e o significado desse reconhecimento para a comunidade do Abassá Oxum Oxóssi, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

Terreiro Santa Bárbara tem reconhecimento reforçado após décadas de luta pela preservação da memória afro-religiosa em São Paulo

Terreiro de Candomblé Santa BárbaraMam'etu Manaundê e a herdeira espiritual do Terreiro de Candomblé Santa Bárbara, Mãe Pulquéria — Foto: Reprodução/Instagram/@terreirosanta

A história do Terreiro de Candomblé Santa Bárbara, na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, é marcada por décadas de luta pela preservação da memória e das tradições afro-religiosas. Fundado em 1962 por Julita Lima da Silva, a Mam'etu Manaundê, o espaço tornou-se uma das mais importantes referências do Candomblé de nação Angola no estado.

Desde os anos 1990, pesquisadores, lideranças religiosas e entidades culturais atuam para garantir o reconhecimento patrimonial da comunidade. O terreiro enfrentou ameaças, como o avanço das obras do Rodoanel, mas conquistou importantes registros junto ao IPHAN e mobilizou diversas iniciativas para seu tombamento e proteção.

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O legado de Mãe Manaundê, falecida em 2004, permanece vivo sob a liderança de Mãe Pulquéria. Recentemente, o Terreiro Santa Bárbara recebeu tombamento ex-officio, medida que fortalece a preservação do espaço sagrado, de seus rituais, saberes e da história dos povos tradicionais de matriz africana em São Paulo.

A redação procurou Mãe Pulquéria para comentar o reconhecimento, mas não recebeu retorno até o fechamento desta reportagem.

O que muda após o tombamento dos terreiros

Com a aprovação do tombamento, os espaços passam a contar com proteção patrimonial oficial do município de São Paulo, garantindo o reconhecimento de sua relevância histórica, cultural e religiosa.

A partir dessa medida, qualquer intervenção estrutural deverá seguir critérios de preservação estabelecidos pelos órgãos competentes, respeitando as características arquitetônicas, simbólicas e tradicionais de cada terreiro.

Ao mesmo tempo, as resoluções do CONPRESP reconhecem que esses espaços são patrimônios vivos, permitindo adaptações necessárias para a continuidade das práticas religiosas, das atividades comunitárias e da transmissão dos saberes ancestrais.

Especialistas destacam que o reconhecimento fortalece o debate sobre a preservação da cultura afro-brasileira nos grandes centros urbanos e contribui para a ampliação de políticas públicas voltadas à valorização da memória negra.

Nos últimos anos, lideranças religiosas, pesquisadores e movimentos sociais têm reivindicado maior proteção aos territórios de matriz africana, frequentemente marcados por processos de invisibilização histórica e episódios de intolerância religiosa.

Nesse contexto, o tombamento dos quatro terreiros na capital paulista representa um marco histórico para o reconhecimento institucional das religiões de matriz africana e de sua contribuição para a formação cultural da cidade.

Para o jornalista do Blé News, Alexandro Oliver, que vivencia a espiritualidade afro-brasileira desde a infância, a conquista possui um significado que ultrapassa a preservação física dos espaços.

O tombamento é um passo fundamental para registrar a memória, preservar o legado e garantir que a história do povo de religião de matriz africana seja conhecida e respeitada pelas futuras gerações”, afirma.

Axé o

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