BleNews
BleNews
Siga-nos
Brasil

Cobranças em terreiro de Candomblé: post viral reacende debate, mas ignora custos reais das casas de axé

Alexandro OliverAlexandro Oliver
09 de abril de 2026 às 18:00

Compartilhar notícia

Cobranças em terreiro de Candomblé viralizam e reacendem debate sobre custos das casas de axé
Cobranças em terreiro de Candomblé viralizam e reacendem debate sobre custos das casas de axéReprodução/Canva

PUBLICIDADE

Espaço para anúncio

Publicação com mais de 10 mil compartilhamentos sobre tabela de valores de sacerdote de Candomblé gera polêmica nas redes e levanta discussão sobre manutenção financeira dos terreiros.

Com mais de 150 mil seguidores no Instagram e 120 mil no Facebook, a página Portal Conexão Belém colocou em circulação, na última segunda-feira (6), um conteúdo que rapidamente ultrapassou 10 mil compartilhamentos e incendiou o debate nas redes sociais sobre cobranças financeiras no Candomblé. O alcance é grande — mas a apuração, segundo o Blé News, não acompanhou a mesma proporção.

Ao divulgar um PDF com valores praticados por um sacerdote de Candomblé sem apresentar o contexto completo, a publicação acabou reforçando uma narrativa superficial e potencialmente desinformativa sobre o funcionamento e os custos reais das casas de axé.

O documento viralizado apresenta uma tabela de valores cobrados por um sacerdote de São Paulo por atendimentos e obrigações religiosas. Entretanto, o próprio responsável pela lista já havia esclarecido publicamente que os valores arrecadados são destinados à manutenção da casa, à realização de festividades de calendário, à compra de insumos ritualísticos e à remuneração da equipe religiosa que auxilia nos processos espirituais.

Por que mãe de santo ou pai de santo de Candomblé cobram por atendimentos e obrigações religiosas? — Foto; Reprodução/Pinterest

Embora a própria publicação do Portal Conexão Belém reconheça e finaliza o texto com “O caso reacende um debate importante sobre fé, tradição e monetização dentro das religiões de matriz africana”, sacerdotes e sacerdotisas ouvidos pelo Blé News alertam que o debate perde legitimidade quando não há contextualização completa sobre a realidade financeira de um terreiro.

Para lideranças religiosas, expor tabelas de valores sem explicar a estrutura por trás desses custos contribui para reforçar estigmas históricos e leituras distorcidas sobre as religiões de matriz africana.

Jogo de búzios e atendimentos ajudam a manter a estrutura religiosa

Muitos sacerdotes e sarcedotizas utilizam atendimentos espirituais, como o ẹ́rindínlógún (jogo de búzios) — sistema oracular de origem iorubá fundamental para a comicação com os orixás no Candomblé — como uma forma de arrecadar recursos para custear as despesas da casa.

Segundo os religiosos ouvidos pela reportagem, os valores cobrados variam de acordo com o porte do terreiro, a demanda de manutenção e os custos específicos de cada comunidade.

Mas atenção: nenhum terreiro sério vende salvação ou obriga ninguém a pagar ou veder bens matérias para realizar trabalhos espirituais. Pessoas em situação de vulneração social são acolhidas gratuitamente. “Casa de axé é lugar de acolhimento, fé e cultura”, resume um babalorixá ouvido pela Blé News. “Prosperidade, para o povo de axé, é estar bem com a familia, com a comunidade e com a sociedade.”

Quanto custa manter uma casa de axé? Festividades podem ultrapassar R$ 50 mil

A realidade financeira de muitos terreiros está longe da percepção popular.

Durante coberturas realizadas pela equipe do Blé News em diversas festividades religiosas, uma sacerdotisa relatou que algumas casas chegam a gastar mais de R$ 50 mil em uma única festividade, especialmente em celebrações de grande porte.

“Tem terreiro que gasta R$ 50 mil reais numa festividade”, conta uma sacerdotisa ouvida pela reportagem. “E ninguém pergunta ou questina para igreja por que se paga dízimo.”

Entre os principais custos estão:

  • Alimentação gratuita para comunidade e visitantes;
  • Hospedagem de filhos, filhas e irmãos de axé vindos de outras cidades ou até mesmo da mesma localidade;
  • Recolhimentos espirituais prolongados;
  • Assistência a filhos e filhas de santo sem condições de locomoção;
  • Compra de insumos ritualísticos;
  • Manutenção física do terreiro;
  • Pagamento de contas fixas mensais;
  • Divisão de valores com membros da equipe religiosa.

Como funciona uma iniciação no Candomblé? Ritual envolve dias de dedicação e logística complexa — Foto: José Medeiros/Arquivo Instituto Moreira Salles(IMS)

Entre os comentários de maior repercussão na publicação está o de Fred Jibóia, que defendeu a razoabilidade dos valores cobrados ao explicar a complexidade de uma iniciação religiosa:

“Achei a lista bem razoável. Exemplo: iniciação de Yao R$ 5.400. São 21 dias de pessoas trabalhando por esse Yao. Pai de Santo algum faz ninguém sozinho. Há ebós que precisam ser cozinhados, deslocamentos até mata, cachoeira, rio, roupas sendo lavadas, alimentação, ensinamentos, atenção e dedicação integral a uma pessoa durante todo o processo.”

Fred ainda ressaltou que sua fala se refere a sacerdotes e casas “sérias e comprometidas com o sagrado”.

Outros comentários destacaram o que seguidores consideram um padrão desigual de julgamento quando práticas financeiras de religiões afro-brasileiras são comparadas às de outras tradições religiosas.

Cíntia Salles comentou:

“Na igreja católica existe dízimo, bingo, venda de comida, bebida e jogos. Igrejas evangélicas arrecadam milhões e ninguém questiona. Mas quando é nas religiões afro, vira absurdo?”

No mesmo sentido, Ikaro Nogueira afirmou:

“Engraçado estarem criticando sendo que na igreja evangélica o pastor pede para os fiéis doarem casas, carros e altos valores em dinheiro.”

Leia também; Humorista Tiago Santineli é levado à delegacia após tumulto em show sobre umbanda em BH

Terreiros oferecem acolhimento gratuito e assistência comunitária

Outro ponto frequentemente ignorado no debate é o papel social exercido pelos terreiros.

Além de suas funções religiosas, muitas casas de axé:

  • acolhem pessoas em vulnerabilidade;
  • oferecem orientação espiritual gratuita;
  • distribuem alimentos;
  • promovem assistência comunitária;
  • preservam tradições culturais ancestrais.

Debate sobre cobrança no Candomblé exige contexto e responsabilidade

Para lideranças ouvidas pelo Blé News, o episódio evidencia a necessidade de maior responsabilidade editorial na cobertura de temas ligados às religiões de matriz africana.

Sem apuração aprofundada e contextualização adequada, o que deveria informar pode facilmente se transformar em reprodução de preconceitos históricos e sensacionalismo disfarçado de debate público.

O erro do Portal Conexão Belém foi o mais básico do jornalismo: não apurou. Transformou uma lista de custos operacionais em “escândalo de monetização da fé” — um discurso que, historicamente, sempre foi usado para criminalizar as religiões de matriz africana.

Enquanto isso, na vida real, os terreiros continuam alimentando quem tem fome, abrigando quem não tem casa e celebrando a cultura sem cobrar ingresso.

PUBLICIDADE

Espaço para anúncio