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Ilú Obá de Min transforma Bixiga em símbolo de resistência

Redação Blé NewsRedação Blé News
14 de maio de 2026 às 04:08· Atualizado em 14/05/2026 às 04:42

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Lavagem da Escadaria do Bixiga denuncia “falsa abolição”
Lavagem da Escadaria do Bixiga denuncia “falsa abolição”Elaine Patricia Cruz/Agência Brasil

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Cortejo liderado pelo Ilú Obá de Min ocupou o centro de São Paulo com tambores, água de cheiro e resistência negra.

A tradicional Lavagem da Escadaria do Bixiga voltou a ocupar as ruas do centro de São Paulo na noite desta terça-feira (13), reunindo centenas de mulheres negras em um ato político, cultural e simbólico contra o que movimentos sociais chamam de “falsa liberdade” após a abolição da escravidão no Brasil. Liderado pelo bloco afro Ilú Obá de Min, o cortejo percorreu a Rua 13 de Maio e a Escadaria do Bixiga espalhando água de cheiro, batuques e cantos ancestrais em defesa da memória negra e da valorização das mulheres negras na história do país. A manifestação acontece anualmente desde 2006, sempre na data em que se celebra a assinatura da Lei Áurea, em 1888. Além da denúncia contra o racismo estrutural e as desigualdades sociais que persistem no Brasil, o ato também busca resgatar a identidade negra do Bixiga, bairro historicamente associado à imigração italiana, mas que já foi território do Quilombo Saracura e conhecido como Pequena África no início do século 20.

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Com tambores ecoando pelas ruas do Bixiga, mulheres negras ocuparam a região central de São Paulo em um cortejo marcado por ancestralidade, denúncia e celebração da cultura afro-brasileira.

O ato foi liderado pelo bloco afro Ilú Obá de Min, coletivo fundado pelas percussionistas Beth Beli, Adriana Aragão e Girlei Miranda. Atualmente, o grupo reúne cerca de 420 integrantes entre bateria e corpo de dança.

Durante o cortejo, as participantes espalharam água de cheiro pelas ruas em um gesto simbólico de limpeza espiritual e resistência histórica.

Segundo Beth Beli, presidenta e diretora artística do bloco, a manifestação busca “recontar a história” sob a perspectiva das mulheres negras.

Se a gente tem alguma arma, a arma é o nosso tambor.”

A fala resume o espírito da manifestação, que utiliza música, corpo e ocupação urbana como formas de expressão política e cultural.

Bixiga e a memória negra apagada da cidade

Embora o Bixiga seja amplamente conhecido pelas tradicionais cantinas italianas e festas típicas, movimentos negros lembram que o bairro possui raízes profundamente ligadas à população negra paulistana.

A região abrigou o histórico Quilombo Saracura, considerado um dos principais territórios negros da capital paulista antes do avanço dos projetos urbanísticos e do processo de embranquecimento da cidade.

No início do século 20, o local chegou a ser chamado de Pequena África devido à forte presença da população negra e das manifestações culturais afro-brasileiras.

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Lavagem da Escadaria do Bixiga denuncia “falsa abolição” — Foto: Reprodução/To Pensando em Viajar

Quilombo Saracura e a origem negra do Bixiga

Durante a lavagem, organizadoras reforçaram que o evento também serve para recuperar a memória apagada do território.

Beth Beli destacou que a escolha do Bixiga não é aleatória. Segundo ela, a narrativa predominante sobre o bairro acabou invisibilizando a contribuição histórica dos povos africanos e afrodescendentes na construção cultural da região.

A presença do samba paulistano, das religiões de matriz africana e das comunidades negras faz parte da identidade original do bairro.

“Esse bairro nunca foi italiano, ele sempre foi dos povos africanos.”

A declaração arrancou aplausos do público que acompanhava o cortejo pelas ruas.

Lavagem do Bixiga reúne 420 mulheres negras em SP — Foto: Elaine Patricia Cruz/Agência Brasil

Manifesto denuncia racismo e desigualdades sociais

Antes do início da caminhada, integrantes do Ilú Obá de Min realizaram a leitura de um manifesto público denunciando o legado deixado pela escravidão e as múltiplas formas de opressão ainda enfrentadas pela população negra no Brasil.

O texto destacou o protagonismo histórico das mulheres negras nas lutas sociais e políticas do país.

Além do racismo, o manifesto citou problemas como machismo, misoginia, capacitismo e LGBTQIAPN+fobia como estruturas que continuam impactando a população negra.

As participantes também defenderam a construção de novos valores sociais baseados em cooperação, ancestralidade e fortalecimento coletivo.

A leitura emocionou quem acompanhava o ato e reforçou o caráter político da manifestação.

“Lavagem da mentira” questiona legado da Lei Áurea

As organizadoras definem o ato como a “lavagem da rua da mentira”, expressão que questiona a narrativa de que a assinatura da Lei Áurea garantiu liberdade plena à população negra no Brasil.

Para o movimento, a abolição aconteceu sem reparação histórica, inclusão social ou garantia de direitos básicos às pessoas negras recém-libertas. Em artigo publicado no Blé News, o colunista Alexandro Oliver relembra como o Estado brasileiro transformou a legislação em ferramenta de repressão às culturas negras após o fim oficial da escravidão.

Com a Proclamação da República, em 1889, foi criado o Código Penal de 1890, considerado um dos principais instrumentos legais de perseguição à população negra e às suas manifestações culturais. A legislação passou a criminalizar práticas como a capoeira, as religiões de matriz africana, costumes ancestrais e até o samba, reforçando o racismo estrutural e a marginalização das tradições afro-brasileiras.

Água de cheiro e tambores carregam simbolismo ancestral

O ritual de lavar as ruas com água de cheiro simboliza purificação, proteção espiritual e a reconexão com as raízes africanas preservadas pela população negra ao longo das gerações.

Os tambores, por sua vez, vão além da musicalidade: representam comunicação coletiva, ancestralidade e fortalecimento da identidade negra nas ruas da cidade.

A lavagem é um feitiço mesmo, para limpar a gente dessas mazelas.” — Beth Beli

Além da dimensão cultural e religiosa, a manifestação também se consolidou como um importante espaço de protagonismo e resistência feminina negra em São Paulo.

Desde sua fundação, o Ilú Obá De Min tornou-se referência nacional na valorização da cultura afro-brasileira, abrindo caminhos para centenas de mulheres na música percussiva e nas expressões artísticas de matriz africana.

Em 2024, o bloco celebrou 20 anos de trajetória e segue responsável por abrir oficialmente o carnaval de rua da capital paulista.

Com informações da Agência Brasil 

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