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Intolerância religiosa: pai de santo denuncia ataques de pastor

Redação Blé NewsRedação Blé News
07 de junho de 2026 às 15:30· Atualizado em 07/06/2026 às 19:50

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Pastor Sérgio Britto, da igreja Jesus Cristo da Última Hora
Pastor Sérgio Britto, da igreja Jesus Cristo da Última HoraReprodução

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Pai de santo relata que pastor invadiu terreiro em Campo Grande, fez ofensas contra praticantes da Umbanda e chamou frequentadores de “satanás”.

O pastor Sérgio Britto, da igreja “Jesus Cristo da Última Hora” foi denunciado por suposta intolerância religiosa após um episódio ocorrido em frente a um terreiro de umbanda no bairro Parque do Lageado, em Campo Grande (MS). O caso aconteceu nos últimos dias e foi registrado na Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac Centro), sendo investigado pela Polícia Civil como possível discriminação ou preconceito religioso. Segundo o pai de santo Paulo Henrique da Silva, de 34 anos, o religioso teria feito declarações ofensivas contra praticantes de religiões de matriz africana, além de realizar pregações em frente ao espaço religioso mesmo após pedidos para que deixasse o local. Parte da ação foi registrada em vídeo. O pastor nega as acusações e afirma que apenas pregava os ensinamentos bíblicos, sem intenção de ofender ou discriminar qualquer pessoa.

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De acordo com o boletim de ocorrência, Paulo Henrique não estava em casa quando o pastor, identificado como Sérgio Britto, teria abordado familiares que estavam em frente à residência.

Ao ser informado sobre a situação, o praticante de umbanda foi até o local e afirma ter ouvido declarações consideradas ofensivas contra seguidores de religiões de matriz africana.

Segundo o relato apresentado à polícia, o pastor teria afirmado que "macumbeiros, feiticeiros e umbandeiros iriam para o inferno". O denunciante também relata que o religioso continuou fazendo declarações relacionadas à sua fé enquanto seguia em direção à residência.

A situação teria causado constrangimento aos moradores e preocupação especialmente com a mãe do sacerdote, uma idosa com problemas de saúde.

As gravações realizadas durante o episódio devem auxiliar na apuração dos fatos pelas autoridades. Em uma das imagens, o pastor aparece ajoelhado em frente ao terreiro, segurando uma Bíblia e realizando orações. Em outro vídeo, ele faz declarações críticas às religiões de matriz africana.

Segundo Paulo de Xangô, o religioso continuou a pregação mesmo após ser solicitado a deixar o local.

"Ele foi em direção ao meu barracão e dizia que, se a gente não mudasse de religião, iria para o inferno", relatou o sacerdote.

O caso foi encaminhado às autoridades competentes e segue sob investigação.

No entanto, segundo apuração exclusiva do Blé News, o episódio não seria um caso isolado. Outro vídeo obtido pela redação mostra o mesmo pastor acompanhado por integrantes de sua igreja durante uma ação de evangelização porta a porta em residências da região.

Em uma das gravações, o líder religioso aparece orando por duas mulheres de uma família. Durante a oração, ele afirma que uma delas estaria "possuída por demônios" e pede que ela identifique um dos supostos espíritos presentes. Após a mulher mencionar "Exu Caveira", o pastor declara: "Espírito da destruição, Exu Caveira, pegue sua bagagem e desça para o inferno agora".

Especialistas e lideranças das religiões de matriz africana apontam que esse tipo de discurso está relacionado a uma prática recorrente observada há décadas em determinados segmentos neopentecostais. Segundo eles, entidades cultuadas na Umbanda e no Candomblé são frequentemente associadas a figuras demoníacas da tradição cristã, o que contribui para a disseminação de desinformação sobre essas religiões.

Para representantes dos povos de terreiro, a associação de entidades como Exu e Pombagira a conceitos de demônio ou forças malignas reforça estereótipos históricos e alimenta preconceitos contra praticantes das religiões afro-brasileiras. Além disso, afirmam que esse tipo de narrativa pode incentivar atos de discriminação, intolerância e desrespeito aos símbolos, divindades e entidades que fazem parte dessas tradições religiosas.

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Procurado para comentar o caso, o pastor negou ter praticado intolerância religiosa.

Segundo sua versão, ele atua como pregador em ruas e espaços públicos e apenas compartilha mensagens baseadas na Bíblia.

O religioso afirmou que não teve a intenção de ofender ninguém e declarou ter sido alvo de xingamentos durante a situação.

Ainda conforme seu relato, suas falas estavam relacionadas à interpretação religiosa sobre arrependimento e salvação espiritual, sem direcionamento específico contra indivíduos.

A Polícia Civil irá analisar os depoimentos, os vídeos apresentados e demais elementos para determinar se houve prática de crime previsto na legislação brasileira.

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A legislação brasileira prevê punições para quem praticar, induzir ou incitar discriminação ou preconceito em razão da religião.

Casos envolvendo ataques a espaços religiosos, ofensas a praticantes e tentativas de impedir manifestações de fé podem ser enquadrados em crimes relacionados à intolerância religiosa.

Especialistas também destacam o conceito de racismo religioso, utilizado para descrever ataques direcionados principalmente às tradições de origem africana.

Racismo religioso atinge principalmente religiões afro-brasileiras

Após o episódio, a família procurou orientação junto ao Instituto Yalodê, organização dirigida pelo Bàbálórìṣà Augusto de Lógunède. Segundo ele, a entidade conta com uma banca formada por 13 advogados voluntários que prestam orientação jurídica a vítimas de perseguição religiosa, discriminação e outras formas de violência motivadas pela fé.

"Nós temos advogados voluntários que, conforme a disponibilidade, oferecem orientação jurídica para pessoas que sofrem abusos, perseguição religiosa e situações relacionadas ao racismo religioso. É importante destacar que existe uma diferença significativa entre intolerância religiosa e racismo religioso", afirma o bàbálórìṣà.

De acordo com bàbá Augusto, o conceito de racismo religioso representa de forma mais precisa a realidade enfrentada pelos povos de terreiro e praticantes das religiões de matriz africana.

"Quando falamos da luta do povo de Axé, estamos falando de racismo religioso. Esse fenômeno nasce do preconceito e da ignorância contra a cultura negra, contra a fé, as divindades e as crenças de origem africana. Eu não vejo campanhas de ódio contra Thor, Loki, Poseidon ou Afrodite. Entretanto, o discurso de rejeição e demonização recai frequentemente sobre Èṣù, Ṣàngó, Lógun Ẹ̀dẹ e sobre todo o panteão das tradições africanas e afro-brasileiras", destaca o bàbá.

Para o sacerdote, muitos dos ataques sofridos por comunidades de terreiro não estão relacionados apenas à divergência de crenças religiosas, mas também a um processo histórico de marginalização das tradições afro-brasileiras, de seus símbolos sagrados e de suas referências culturais.

Ele ressalta que o Instituto Yalodê permanece à disposição para acolher e orientar pessoas que enfrentem casos de discriminação, racismo religioso ou violações à liberdade de culto, oferecendo suporte jurídico e encaminhamento adequado às vítimas.

"Nosso objetivo é garantir que essas pessoas tenham acesso à informação, aos seus direitos e aos mecanismos legais necessários para enfrentar esse tipo de violência", conclui.

Religiões de matriz africana lideram denúncias

Dados do Disque Direitos Humanos – Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania recentes mostram que as religiões afro-brasileiras continuam sendo as mais afetadas pelos registros de discriminação religiosa no país.

Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026 foram registradas:

Denúncias por religião

  • Umbanda: 228 denúncias
  • Candomblé: 161 denúncias
  • Umbanda e Candomblé: 47 denúncias
  • Outras religiões afro-brasileiras: 40 denúncias
  • Evangélica: 72 denúncias
  • Católica Apostólica Romana: 37 denúncias
  • Espírita: 30 denúncias

Também foram registrados casos envolvendo judeus, muçulmanos, ateus, agnósticos e outras tradições religiosas.

Estudo revela avanço do racismo religioso nos terreiros

Levantamento do relatório "Respeite Meu Terreiro", desenvolvido em parceria com universidades e instituições de pesquisa, revelou números preocupantes.

Dos 255 terreiros analisados em todo o Brasil:

  • 76% relataram já ter sofrido racismo religioso;
  • 80% disseram que integrantes da comunidade foram vítimas de violência;
  • 93% dos terreiros com mais de 100 frequentadores registraram episódios de discriminação.

Formas mais comuns de violência

  • 76% discriminação
  • 14% agressões verbais
  • 8% xingamentos
  • 3% agressões físicas

Além disso, foram relatados casos de ameaças, depredação de espaços sagrados, interrupção de rituais e discriminação institucional.

Os números reforçam o desafio enfrentado por comunidades tradicionais na garantia da liberdade religiosa e do respeito à diversidade de crenças prevista na Constituição Federal.

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