Teologia do Domínio: como avança a disputa por poder no Brasil

O debate sobre fé e política ganhou força no Brasil, mas o que é Teologia do Domínio e até onde vai sua influência?
A relação entre religião e política voltou ao centro do debate brasileiro diante do crescimento da participação evangélica na vida pública e de discussões sobre o chamado projeto de poder religioso. Nesse cenário, a expressão Teologia do Domínio passou a ser usada por pesquisadores e críticos para descrever correntes que defendem maior influência cristã sobre diferentes áreas da sociedade. Entre os conceitos associados está o das “Sete Montanhas”, que envolve política, educação, mídia, economia, família, artes e religião. Estudos acadêmicos apontam que essas ideias ajudam a interpretar determinados movimentos de mobilização política evangélica no país, embora o campo religioso seja heterogêneo e não exista um projeto único compartilhado por todos os evangélicos.
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O tema também aparece nas falas de lideranças religiosas. Em outubro de 2024, o pastor Caio Fábio afirmou ao podcast Fé e Poder, do PlatôBR, que algumas lideranças teriam um “plano de poder” para transformar o Brasil em uma espécie de república evangélica, chegando a usar a expressão “um Irã evangélico”. Trata-se de uma avaliação e uma acusação política feitas pelo próprio pastor, não de uma descrição consensual sobre o movimento evangélico brasileiro.
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Teologia do Domínio e a disputa pelo espaço público
A chamada Teologia do Domínio não corresponde a uma igreja específica nem a uma doutrina única seguida por todos os cristãos. Pesquisadores utilizam o termo para analisar diferentes correntes que defendem uma atuação cristã mais abrangente na sociedade e, em determinadas vertentes, a conquista de influência sobre estruturas políticas e culturais.
Um estudo publicado na revista Estudos de Religião, da Universidade Metodista de São Paulo, analisou o Dunamis Movement e sua atuação no Brasil. A pesquisa relaciona a noção das “Sete Montanhas” à ideia de influência cristã em áreas estratégicas da sociedade e examina como essa cosmovisão contribui para a entrada de determinados grupos evangélicos na arena político-institucional.
Outro estudo acadêmico, publicado pela PUC-SP, apresenta a Teologia do Domínio como uma possível chave de interpretação para analisar a relação entre segmentos evangélicos e a política brasileira. O trabalho ressalta, porém, que se trata de uma categoria ampla e que sua utilização exige cuidado para não transformar um universo religioso diverso em um bloco único.
O que são as “Sete Montanhas”?
A ideia das “Sete Montanhas” aparece em determinadas correntes ligadas ao chamado dominionismo. A proposta parte da compreensão de que cristãos deveriam exercer influência em áreas estratégicas da sociedade, tradicionalmente apresentadas como governo, educação, mídia, artes e entretenimento, religião, família e negócios.
Pesquisas brasileiras sobre o tema descrevem essa concepção como parte de uma corrente que busca ampliar a presença cristã nas estruturas sociais e políticas. Entretanto, a existência dessa corrente não significa que todos os evangélicos brasileiros adotem suas premissas.
Centenas de pessoas participam da Marcha para Jesus 2025 em Rio Branco — Foto: Reprodução/Prefeitura de Rio Branco
Essa distinção é importante porque o Brasil possui milhões de pessoas evangélicas com posições políticas, denominações, interpretações bíblicas e formas de participação social diferentes.
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Fé, política e o conceito de Estado laico
A discussão ganha outra dimensão quando entra em cena a Constituição Federal.
O Art. 19 da Constituição Federal, de 1988, determina que União, estados, Distrito Federal e municípios não podem estabelecer ou subvencionar cultos religiosos, nem manter com igrejas ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada a colaboração de interesse público prevista em lei. Ao mesmo tempo, a Constituição assegura a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos religiosos.
Na prática, isso significa que Estado laico não é sinônimo de Estado sem religião na sociedade.
Pessoas religiosas podem participar da política, disputar eleições, defender políticas públicas e apresentar argumentos inspirados em suas convicções. O ponto jurídico central está na autonomia do Estado diante das instituições religiosas e na garantia de liberdade de crença — inclusive para quem não possui religião.
O pastor e deputado federal Henrique Vieira (PSOL-RJ) defende publicamente essa interpretação. Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, afirmou que o Estado laico não é contra a religião e que a laicidade protege tanto o direito à crença quanto o direito à não crença.
O alerta sobre um “projeto de poder”
Henrique Vieira também utiliza a expressão “projeto de poder” para criticar determinadas formas de atuação político-religiosa.
Em entrevista publicada pela Agência Pública, Vieira afirmou que considera problemática a utilização da religião para ocupar espaços públicos e eletivos com o objetivo de pautar a coletividade a partir de uma determinada interpretação religiosa.
Em pronunciamento na Câmara dos Deputados, em 2023, ele também ressaltou que a chamada bancada evangélica não representa automaticamente todos os evangélicos e criticou o que classificou como uso da fé para um projeto de poder.
Já em 2025, em outro discurso parlamentar, Vieira voltou a fazer distinção entre a experiência religiosa dos fiéis e a atuação de determinadas lideranças que, segundo sua avaliação, utilizariam a religião para fins políticos.
Essas declarações representam a posição pública de Vieira e não uma conclusão consensual sobre todas as igrejas ou lideranças evangélicas.
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O campo evangélico não é um bloco único
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para entender a discussão.
Há setores evangélicos conservadores que defendem maior presença de valores cristãos na formulação de políticas públicas. Há também grupos que defendem uma participação política baseada em justiça social, direitos humanos e combate à pobreza. Existem ainda igrejas e lideranças que defendem maior separação entre atividade religiosa e disputa eleitoral.
Por isso, falar em “os evangélicos” como se existisse uma única posição política pode esconder justamente a diversidade existente dentro desse campo religioso.
A própria literatura acadêmica sobre religião e política destaca diferentes correntes, organizações e formas de engajamento. O estudo sobre o Dunamis Movement, por exemplo, analisa especificamente uma determinada organização e sua cosmovisão, sem permitir concluir que essa visão represente o conjunto dos evangélicos brasileiros.
Onde termina a participação religiosa e começa a disputa pelo Estado?
A questão central do debate não é simplesmente se religião e política podem se relacionar. Elas historicamente se relacionam, no Brasil e em diferentes democracias.
A questão é como essa participação acontece.
Uma pessoa pode entrar na política motivada por sua fé e defender políticas públicas inspiradas por seus valores. Ao mesmo tempo, em uma sociedade plural, essas propostas precisam disputar legitimidade dentro das instituições democráticas e respeitar direitos constitucionais de pessoas que possuem outras religiões ou nenhuma religião.
É nesse ponto que aparecem as preocupações de críticos da chamada Teologia do Domínio. Para eles, o problema começa quando uma determinada interpretação religiosa deixa de ser uma convicção particular e passa a reivindicar autoridade privilegiada sobre o Estado e sobre toda a sociedade.
Já defensores de uma participação religiosa mais assertiva argumentam que cidadãos religiosos também têm direito de participar do debate público e que suas convicções não precisam ser abandonadas quando entram na esfera política.
Assim, a discussão brasileira envolve uma tensão entre liberdade religiosa, pluralismo, participação política e autonomia do Estado.
Caio Fábio e a expressão “república evangélica”
O debate ganhou uma declaração particularmente contundente em outubro de 2024.
No primeiro episódio do podcast Fé e Poder, do PlatôBR, Caio Fábio afirmou que algumas lideranças religiosas, citando nominalmente nomes como Silas Malafaia e Edir Macedo, teriam um projeto de poder para transformar o país em uma “República Evangélica do Brasil”. Na mesma entrevista, classificou o cenário que descreveu como uma teocracia e utilizou a expressão “um Irã evangélico”.
A declaração deve ser entendida como uma crítica e uma interpretação política de Caio Fábio. Ela não comprova, por si só, a existência de um plano institucional único de todas as igrejas evangélicas brasileiras.
O próprio cenário religioso brasileiro é marcado por disputas internas, diferentes denominações e visões políticas divergentes.
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O debate está longe de ser apenas religioso
A discussão sobre Teologia do Domínio chegou ao campo acadêmico justamente porque envolve questões que ultrapassam a teologia.
Pesquisadores analisam como determinadas ideias religiosas podem influenciar organizações, discursos públicos, movimentos sociais, campanhas políticas e estratégias de ocupação de espaços de poder. Estudos também investigam a relação entre movimentos religiosos, mídia e participação eleitoral.
Ao mesmo tempo, a presença de religiosos na política não significa automaticamente uma ameaça à democracia ou uma tentativa de instaurar uma teocracia.
O que precisa ser observado, caso a caso, são as propostas concretas, os discursos, as alianças políticas, os projetos legislativos e a relação dessas iniciativas com os direitos constitucionais e com o pluralismo democrático.
No fim, a pergunta mais importante talvez não seja se pessoas de fé podem participar da política. A Constituição garante a liberdade de consciência e de crença.
A questão é outra: até onde uma convicção religiosa individual ou coletiva pode orientar a atuação política sem que uma determinada interpretação de fé seja transformada em regra obrigatória para toda a sociedade?
É justamente nessa fronteira entre fé, poder, democracia e Estado laico que o debate sobre a Teologia do Domínio continua avançando no Brasil.
“Estado laico não é contra religião.” — Henrique Vieira, em entrevista ao IHU.




