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Rio de Janeiro

Vídeo de Sérgio Pina questiona a relação entre Candomblé e população negra

Alexandro OliverAlexandro Oliver
02 de setembro de 2026 às 20:07· Atualizado em 03/09/2026 às 03:08

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Candomblé e raça: entenda a polêmica de Sérgio Pina em 2026
Candomblé e raça: entenda a polêmica de Sérgio Pina em 2026Reprodução/Instagram/@sergiopinareal
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Babalorixá questionou a associação da religião à população negra. Mas o Censo de 2022 mostra que 56,4% dos adeptos são pretos e pardos. O que diz a história?

A internet amanheceu dividida após a publicação de um vídeo do babalorixá e candidato a deputado federal Sérgio Pina (PSDB-RJ) na terça-feira (1º). Na gravação, o sacerdote — conhecido por sua ligação espiritual com a cantora Anitta e por seu apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro — questiona em tom de crítica: “Como assim o Candomblé pertence aos negros?”. A fala, curta e direta, abriu uma fissura nas redes sociais ao tocar em um ponto sensível para milhões de brasileiros: a linha tênue entre a origem histórica africana da religião e a identidade racial de quem a pratica hoje. Enquanto parte dos internautas acusou Pina de negar a ancestralidade preta, outros defenderam a universalidade da fé. A polêmica, no entanto, vai muito além de um vídeo de poucos segundos. Ela expõe um debate profundo sobre letramento racialintolerância religiosa e a luta dos terreiros para manter viva a memória dos povos escravizados que ergueram essa tradição no Brasil. Veja o vídeo no final desta matéria.

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A origem do Candomblé e a pergunta que acendeu o debate

O vídeo de Sérgio Pina não trouxe uma tese acadêmica, mas uma provocação. Ao questionar a associação direta entre o Candomblé e a população negra, ele cutucou uma ferida que mistura fé, política e identidade. Para entender a reação, é preciso voltar no tempo.

O Candomblé não nasceu pronto. Ele foi forjado no Brasil a partir da dor e da resistência de africanos de diferentes etnias — como os iorubás, os povos fon/ewe e os bantus — que chegaram aqui escravizados. Não era uma religião única na África, mas um conjunto de tradições que, no território brasileiro, precisou ser reorganizado para sobreviver. Foi nesse processo de reconstrução, especialmente na Bahia do século XIX, que surgiram as primeiras casas de culto organizadas por linhagens que conhecemos hoje como nações Ketu, Jeje e Angola.

É impossível dissociar a criação do Candomblé da experiência negra. Durante a escravidão, os terreiros se tornaram quilombos espirituais: espaços onde a língua, a comida, a música e a relação com os orixás podiam existir longe dos olhos do colonizador. A perseguição policial e a demonização dos símbolos — algo que, infelizmente, ainda vemos hoje em ataques nas redes sociais e em igrejas que demonizam as religiões de matriz africana — transformaram a prática religiosa em um ato de resistência política e cultural.

Terreiros foram alvo de perseguições promovidas pelo EstadoTerreiros foram alvo de perseguições promovidas pelo Estado. Foto retirada de microfilme da Biblioteca Nacional. Diário de notícias, 1 de abril de 1941 — Foto: Reprdução

Por que o Candomblé é historicamente ligado à luta negra?

A história do Candomblé se confunde com a história da população negra no Brasil porque foram os corpos negros escravizados que carregaram esse conhecimento através do Atlântico. Eles foram os primeiros a cultuar os orixás em solo brasileiro, muitas vezes escondendo suas divindades atrás de imagens de santos católicos para escapar da repressão — o famoso sincretismo religioso.

Esse passado de luta não é um detalhe. Ele é a espinha dorsal da religião. Quando um babalorixá questiona a quem a religião pertence, muitos praticantes sentem que há uma tentativa de apagar a memória dos que sofreram e morreram para que o culto existisse hoje. A reação a Pina, portanto, não se trata apenas de teologia: é uma defesa da honra ancestral.

Por outro lado, o debate moderno tenta equilibrar essa história com a realidade atual dos terreiros.

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Candomblé é só para negros? O que dizem os dados atuais

É aqui que a fala de Pina encontra eco em uma parte da sociedade. Nos últimos anos, o perfil dos adeptos de religiões de matriz africana vem mudando significativamente no Brasil. Segundo dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE, 42,9% das pessoas que se declaram adeptas da umbanda e do candomblé se identificam como brancas.

Rio de Janeiro  A fala de Sérgio Pina reacendeu o debate sobre raça e féA fala de Sérgio Pina reacendeu o debate sobre raça e fé — Foto: Reprodução/Instagram/@sergiopinareal

O número surpreende e mostra que a fé ultrapassou as barreiras raciais. Contudo, o mesmo Censo escancara a continuidade histórica: a soma de pretos (23,2%) e pardos (33,2%) chega a 56,4% do total de fiéis. Ou seja, a população negra segue sendo a base demográfica dessas religiões.

A coexistência desses dados cria um paradoxo interessante. Como uma religião com origem negra se torna majoritariamente praticada por não-negros em algumas regiões? E o quanto isso é fruto da busca de pessoas brancas por uma espiritualidade mais conectada à natureza, em oposição à repressão que os negros sofriam (e sofrem) por praticá-la? A pergunta que fica é justamente essa: quem pode falar em nome da tradição quando a sala de visitas é branca, mas o alicerce da casa é preto?

Leia também: Intolerância religiosa no Brasil: Disque 100 registra 2.774 denúncias entre 2025 e 2026

A dimensão política da fala de Sérgio Pina

Sérgio Pina não é um sacerdote qualquer. Sua imagem pública se consolidou na intersecção entre o sagrado e o midiático. Conhecido como babalorixá de Anitta, ele apareceu em um videoclipe da música "Aceita" da cantora em 2024 que usava referências visuais do Candomblé, o que o catapultou para um público que antes não acompanhava sua rotina religiosa.

Sérgio Pina, o pai de santo de Anitta, no ato de BolsonaroSérgio Pina, pai de santo da cantora Anitta, durante ato convocado por Jair Bolsonaro em defesa da anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, realizado na Avenida Paulista, em São Paulo, em 6 de abril de 2025 — Foto: Reprodução

A polêmica do vídeo, porém, se intensifica pelo posicionamento político do sacerdote. Pina é um defensor público do ex-presidente Jair Bolsonaro e transita entre símbolos do conservadorismo. Para muitos líderes de terreiros, essa postura cria uma contradição interna: como alguém que pertence a uma religião historicamente marginalizada pelo Estado pode apoiar um projeto político que, em tese, é associado a discursos de perseguição às minorias?

Por isso, a repercussão da fala de Pina ultrapassou o limite da teologia. Ela se tornou uma discussão sobre representatividade política, sobre o lugar dos corpos negros na direita brasileira e sobre os limites da diversidade ideológica dentro das religiões de matriz africana. A pergunta que muitos membros das religiões de matriz africana fazem é direta: Será que é possível separar a fé do posicionamento político quando a própria história da fé é uma história de luta contra a opressão?

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O futuro do debate: fé aberta x memória ancestral

A fala de Sérgio Pina, goste-se ou não, abriu um espaço necessário de conversa. O Candomblé do século XXI não é o mesmo do século XIX. Ele se expandiu, ganhou novos adeptos e se adaptou às cidades grandes. Hoje, é comum ver pessoas de todas as cores vestindo branco às sextas-feiras ou buscando aconselhamento em jogos de búzios.

Mas o que muitos praticantes defendem — e o que a reação ao vídeo deixou claro — é que pertencimento não significa posse. Uma pessoa branca pode, sim, viver o Candomblé com devoção e verdade, integrando a comunidade. No entanto, isso não apaga o fato de que a teologia, a hierarquia, a música e a língua foram preservadas por mãos negras sob o chicote.

A conclusão a que se chega é que o Candomblé não é uma "propriedade" racial no sentido excludente, mas é, inegavelmente, uma herança africana no sentido histórico. Ignorar essa nuance é reescrever a história. Usá-la para excluir alguém é negar a potência da fé. O desafio dos terreiros, portanto, é ensinar a história sem fechar as portas.

O vídeo de Sérgio Pina pode desaparecer do feed em alguns dias, mas a conversa que ele iniciou — sobre racismo, fé e memória ancestral — veio para ficar.

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