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Voto feminino no Brasil é resultado de mais de um século de luta contra a misoginia

Redação Blé NewsRedação Blé News
06 de agosto de 2026 às 19:58

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Voto feminino: a luta contra a misoginia no Brasil
Voto feminino: a luta contra a misoginia no BrasilAcervo Arquivo Nacional
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Discursos contra o voto das mulheres reaparecem em 2026, enquanto elas já são maioria do eleitorado brasileiro.

O voto feminino no Brasil atravessa mais de um século de resistência a discursos que questionam a capacidade das mulheres de participar da vida política. Em 1891, durante os debates da primeira Constituição republicana, parlamentares já defendiam que mulheres não deveriam votar. Em 2026, argumentos semelhantes voltaram ao debate público, mostrando, segundo pesquisadoras ouvidas pela Agência Brasil, que a linguagem pode mudar, mas a lógica de exclusão permanece. O cenário ganha ainda mais peso porque, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 83.877.126 mulheres estão aptas a votar neste ano, contra 74.845.001 homens. As mulheres representam, portanto, mais de 53% do eleitorado brasileiro.

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Voto feminino nasceu de uma disputa política

A conquista do direito de votar não foi uma concessão espontânea do Estado brasileiro. Ela foi resultado de décadas de mobilização, articulação política, produção intelectual e enfrentamento ao machismo institucional.

A professora Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), afirma que os ataques contemporâneos ao sufrágio feminino guardam relação com manifestações históricas de misoginia.

Segundo a pesquisadora, “a linguagem mudou, mas a lógica patriarcal, misógina e machista é a mesma”. Para ela, a manutenção dos direitos políticos depende de uma luta permanente.

A pesquisadora Cibele Tenório, da Universidade de Brasília (UnB), também chama atenção para a repetição histórica desses discursos. Jornalista e doutoranda em história, ela pesquisa a trajetória da sufragista alagoana Almerinda Gama, uma das primeiras mulheres negras a atuar na política brasileira.

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O argumento de que mulheres seriam incapazes

Em 1890, a Assembleia Constituinte rejeitou o sufrágio feminino recorrendo à ideia de que as mulheres não teriam capacidade intelectual para participar da política.

No ano seguinte, durante os debates constitucionais, o senador Coelho e Campos afirmou: “Minha mulher não irá votar”. Na mesma época, o parlamentar Serzedelo Corrêa argumentou que colocar mulheres no ambiente das disputas políticas significaria retirar delas uma suposta “santidade”.

A estratégia não ficava restrita ao Parlamento. Mulheres que defendiam participação política também eram ridicularizadas na imprensa e na sociedade.

Sufragistas eram chamadas de “mulheres-homens”, enquanto charges apresentavam mulheres ocupando espaços públicos e homens realizando tarefas domésticas para transformar a defesa da igualdade política em motivo de deboche.

Misoginia política reaparece em 2026

Mais de um século depois, discursos que questionam a capacidade das mulheres de votar voltaram a provocar reação.

A pesquisadora Fernanda Abreu considera que manifestações recentes contra o direito de voto das mulheres podem ser entendidas dentro de um movimento de reação aos avanços femininos.

Em 2026, a discussão ganhou força após declarações do influenciador Paulo Figueiredo, que afirmou que mulheres solteiras votariam “estatisticamente mal” e que mulheres casadas tenderiam a acompanhar o marido.

Para as estudiosas ouvidas pela Agência Brasil, falas desse tipo não devem ser analisadas isoladamente. Elas podem contribuir para desestimular a participação política feminina e reproduzir uma estrutura histórica que associava mulheres ao espaço doméstico e homens à representação pública.

Cibele Tenório alerta que ataques dessa natureza podem produzir intimidação, mesmo quando não existe uma proposta concreta de retirada do direito ao voto.

83.877.126 mulheres estão aptas a votar nas eleições de 2026, segundo dados do TSE.

Eleitorado feminino é maioria no Brasil

A dimensão do eleitorado feminino ajuda a explicar por que o debate tem relevância política.

Segundo o TSE, as mulheres representam mais de 53% das pessoas aptas a votar no Brasil em 2026. São 83,8 milhões de eleitoras, enquanto o eleitorado masculino reúne cerca de 74,8 milhões de pessoas.

Os dados também mostram diferenças na escolaridade. Entre as mulheres, 29,28% têm ensino médio completo e 13,08% concluíram a faculdade. Entre os homens, os percentuais são de 26,35% e 9,1%, respectivamente.

Entre as eleitoras, 51,76% se declararam pardas, 10,96% pretas e 35,71% brancas. Metade declarou estado civil de solteira.

Para pesquisadoras, esses números ajudam a desmontar argumentos históricos que tentaram associar o gênero feminino à falta de capacidade para tomar decisões políticas.

Mulheres negras também fazem parte dessa história

A trajetória do sufrágio brasileiro não pode ser contada apenas a partir de mulheres brancas de grupos privilegiados.

Cibele Tenório destaca a importância de Almerinda Gama, sufragista alagoana, jornalista e uma das primeiras mulheres negras a atuar politicamente no país.

A presença de mulheres negras na luta por direitos políticos revela que a conquista do voto esteve ligada a diferentes experiências de resistência e participação social.

A reação aos avanços ganhou um nome

As pesquisadoras entrevistadas pela Agência Brasil relacionam os ataques contemporâneos ao conceito de backlash, expressão utilizada na teoria feminista para descrever reações contrárias aos avanços conquistados pelas mulheres.

A lógica é relativamente simples: conforme direitos são ampliados, estruturas tradicionais podem reagir para tentar preservar privilégios.

Fernanda Abreu resume esse processo ao afirmar que, quanto mais as mulheres avançam, maior pode ser a resistência das estruturas sustentadas pela misoginia, pelo patriarcado e pelo machismo.

Para Hildete Pereira, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF), a desigualdade também aparece na divisão social dos papéis. Historicamente, mulheres foram incentivadas a ocupar funções de cuidado, enquanto a representação política permaneceu associada aos homens.

A longa caminhada até as urnas

A organização política das mulheres ganhou força no início do século 20.

Em 1910, surgiu o Partido Republicano Feminino. Em 1917, mulheres realizaram uma marcha com cerca de 90 participantes pelas ruas do Rio de Janeiro para defender o sufrágio.

As sufragistas também criaram jornais, escolas e espaços de formação para disputar ideias em uma sociedade que frequentemente ridicularizava suas reivindicações.

Bertha Lutz foi um dos principais nomes dessa mobilização. Segundo Cibele Tenório, ela tinha habilidade para construir alianças inclusive com setores conservadores.

Em 1922, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino ampliou a articulação, pressionando o Congresso, dialogando com governadores e organizando manifestações.

A estratégia envolvia imprensa, mobilização social e conexões com movimentos sufragistas de outros países.

Leolinda Daltro e a resistência institucional

Outra personagem importante foi Leolinda Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino e uma das lideranças mais combativas do sufragismo.

Em 1919, sua candidatura à Intendência Municipal do Distrito Federal foi negada pelo poder público.

Segundo a historiadora Ana Prestes, Leolinda também foi alvo frequente de ataques da imprensa, que procurava retratá-la como uma mulher que ameaçava a ordem social.

Esses episódios demonstram que a resistência ao voto feminino não se limitava a opiniões individuais. Ela também aparecia em instituições, leis, práticas administrativas e representações culturais.

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1932 marcou uma virada histórica

O principal marco legislativo da conquista foi o Decreto nº 21.076, de 1932, que instituiu o primeiro Código Eleitoral brasileiro e garantiu às mulheres o direito de votar, além do voto secreto.

O direito foi consolidado na Constituição de 1934.

Ainda assim, a participação política feminina continuou cercada de restrições. O Código Eleitoral de 1946 tornou o voto obrigatório para mulheres alfabetizadas.

A Constituição de 1988 eliminou o requisito de alfabetização e consolidou o sufrágio universal como princípio constitucional.

A professora Fernanda Abreu afirma que manifestações que questionem o direito ao voto feminino entram em choque com o artigo 14 da Constituição, que estabelece o sufrágio universal. Ela também aponta possíveis conflitos com o princípio constitucional de igualdade e não discriminação.

A avaliação sobre eventual responsabilização jurídica de manifestações específicas, porém, depende da análise de cada caso pelas autoridades competentes.

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O que a história do sufrágio ensina hoje?

Para as pesquisadoras, o principal aprendizado é que direitos políticos não devem ser tratados como conquistas definitivas e imunes a retrocessos sociais.

A professora Marlise Matos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), defende que o Estado reforce campanhas de informação sobre a participação política das mulheres.

Ana Prestes também aponta a educação como uma ferramenta de resistência. Muitas sufragistas eram professoras ou atuavam diretamente na formação de outras mulheres.

A história mostra ainda que a conquista do voto esteve conectada a outras pautas, como acesso à educação, trabalho e autonomia econômica.

Hildete Pereira defende que recuperar a memória dessas mulheres é fundamental para evitar o apagamento de suas contribuições.

No Brasil de 2026, quando as mulheres formam a maioria do eleitorado, a história do sufrágio ganha uma dimensão ainda mais atual.

A conquista iniciada com décadas de mobilização continua presente em cada eleição. E, como resumem as pesquisadoras, a principal lição deixada pelas sufragistas é direta: participar é também uma forma de resistência.

Com informações da Agência Brasil 

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