Estação 14 Bis-Saracura tem novos achados arqueológicos ligados a possível terreiro

Novos vestígios incluem alicerces, waji, ossos e objetos que podem estar ligados a antigo terreiro.
Novos achados arqueológicos encontrados entre junho e julho durante as obras da futura Estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja, em São Paulo, podem indicar a existência de um antigo terreiro de matriz afro-brasileira no local. A avaliação é da pesquisadora Syntia Pereira Alves, doutora em Ciências Sociais e especialista em religiões de matriz afro-brasileira, após análise de estruturas e objetos encontrados durante as escavações. Entre os materiais identificados estão três alicerces de tijolos maciços, um amplo piso de cimento, martelo, pregos, uma conta verde, quase um quilo de waji (anil), feixes de madeira, ossos bovinos e suínos e fragmentos de ovos de galinha. A concessionária Linha Uni informou que segue as orientações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), suspendeu temporariamente as escavações no trecho e fará o registro, catalogação e recolhimento dos materiais para o acervo do sítio arqueológico. A descoberta amplia as discussões sobre a preservação da memória negra e religiosa do território Saracura/Vai-Vai.
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Estação 14 Bis-Saracura ganha novos achados arqueológicos
O relatório arqueológico divulgado na última semana descreve novas estruturas e conjuntos de materiais localizados no canteiro da futura estação.
Segundo a pesquisadora Syntia Pereira Alves, um amplo piso de cimento identificado durante a escavação poderia corresponder a um terreiro. A hipótese considera não apenas a estrutura física, mas também a combinação e a disposição dos objetos encontrados no terreno.
Entre as descobertas estão três alicerces construídos com tijolos maciços. Próximo a essas estruturas, os pesquisadores encontraram um martelo fixado no piso, pregos, uma conta verde e aproximadamente um quilo de waji, conhecido como anil e utilizado em práticas de religiões de matriz afro-brasileira.
Também foram identificados feixes de madeira, ossos de animais e fragmentos de ovos de galinha.
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Vestígios podem ajudar a interpretar antigo terreiro
A análise apresentada no relatório considera o conjunto dos materiais encontrado no local. Para Syntia, a presença de waji associada a vestígios de fauna pode guardar relação com práticas rituais do Candomblé.
Novos vestígios arqueológicos encontrados nas obras da futura Estação 14 Bis-Saracura podem indicar a existência de um antigo terreiro de matriz afro-brasileira no território Saracura/Vai-Vai — Foto: Reprodução
De acordo com a especialista, essa associação pode ser característica de práticas de firmeza, assentamento ou limpeza de solo. Os ovos, por sua vez, aparecem em diferentes contextos ritualísticos relacionados à neutralização de energias e à consagração de espaços.
Os ossos bovinos e suínos também são apontados como possíveis vestígios de práticas de partilha ritual e oferecimento às divindades.
A pesquisadora ressalta, portanto, que os materiais precisam ser compreendidos em conjunto, levando em consideração a disposição arqueológica encontrada no terreno.
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Objetos encontrados têm possíveis relações com Ogum e Exu
Os feixes de madeira também chamaram atenção durante a análise. Segundo Syntia, a grande quantidade de varas finas e flexíveis reunidas poderia corresponder a um atori, elemento que possui importância ritual no Candomblé e em outras tradições de matriz africana.
O atori pode estar relacionado a simbolismos de proteção, purificação e equilíbrio espiritual.
Outro elemento de destaque é o martelo encontrado fixado no piso. Conforme a avaliação da especialista, a ferramenta integra o universo de objetos sagrados ou instrumentos de assentamento associados a algumas divindades afro-brasileiras, especialmente Ogum.
Os pregos também possuem relevância nesse contexto. A pesquisadora aponta sua associação principalmente com Ogum e Exu, incluindo usos relacionados à ancoragem energética, firmezas, abertura de caminhos e proteção.
É importante destacar que essas interpretações integram o relatório da especialista e não significam, por si só, uma comprovação definitiva da existência de um terreiro no local. A identificação arqueológica e a destinação dos materiais seguem em avaliação.
A concessionária informou que as escavações foram temporariamente pausadas no trecho onde os novos materiais foram encontrados.
Achados ampliam área conhecida do sítio Saracura/Vai-Vai
Os novos vestígios também reforçam a importância arqueológica do território conhecido como Saracura/Vai-Vai, historicamente associado à presença negra e à memória do bairro do Bixiga.
O novo relatório indica que o sítio arqueológico pode se estender para além das áreas que já haviam sido investigadas durante as obras da estação.
A descoberta ocorre após a retomada de parte das escavações, autorizada pelo Iphan em março, quando havia sido encerrada uma etapa de coleta de materiais nas áreas anteriormente delimitadas.
Agora, a localização de novas estruturas e objetos abre uma nova etapa de avaliação sobre a extensão e a preservação do sítio.
O que diz a Linha Uni sobre os materiais
A Linha Uni, concessionária responsável pelas obras, afirmou que segue as orientações do Iphan diante dos novos achados arqueológicos.
Segundo a empresa, os materiais encontrados serão registrados, catalogados e recolhidos para integrar o acervo do sítio arqueológico.
A concessionária também informou que as atividades foram temporariamente interrompidas no trecho do canteiro onde os objetos foram identificados durante o período de verificação.
A empresa afirmou ainda manter diálogo com os órgãos responsáveis e com a comunidade local sobre os trabalhos realizados na área da futura estação.
Atualmente, as obras da Estação 14 Bis-Saracura apresentam 15,11% de execução, segundo as informações apresentadas no material sobre o empreendimento.
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Mobiliza Saracura Vai-Vai cobra preservação do sítio
Em manifestação divulgada nesta quinta-feira (6), o coletivo Mobiliza Saracura Vai-Vai afirmou que os novos achados reforçam a necessidade de preservação do território arqueológico.
O movimento cita, além dos alicerces e pisos, fragmentos de cerâmica, aproximadamente um quilo de waji, conchas marinhas e ossos de animais entre os materiais identificados.
Para o coletivo, a descoberta dá materialidade à existência de um espaço sagrado permanente e reforça a defesa da preservação do sítio.
O grupo também afirma que uma cavidade estruturada identificada no solo pode corresponder, segundo a consultora Syntia Alves, a uma estrutura de fundamento de um terreiro de Candomblé.
O movimento defende que a futura Estação 14 Bis-Saracura seja transformada em um espaço de preservação e memória. Segundo o coletivo, a estação poderia se tornar a primeira estação metroferroviária musealizada do Brasil.
O Mobiliza Saracura Vai-Vai também contesta a ideia de que os achados arqueológicos sejam responsáveis pelo atraso das obras. Para o grupo, outros fatores, como as condições geológicas do terreno, também interferem no andamento do empreendimento.
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O que acontece agora com a Estação 14 Bis-Saracura?
Com os novos achados, a preservação arqueológica passa novamente a ocupar papel central no andamento das obras.
A concessionária afirma que seguirá as orientações do Iphan e que os materiais serão catalogados e incorporados ao acervo arqueológico.
O coletivo, por outro lado, cobra informações mais detalhadas sobre o cronograma da estação, a fiscalização e o acompanhamento das descobertas, além da guarda, preservação, exposição e eventual devolução dos materiais à comunidade.
A principal questão, neste momento, é conciliar a continuidade da Linha 6-Laranja com a preservação de um território que pode guardar vestígios importantes da história negra, cultural e religiosa de São Paulo.
A possível identificação de um antigo terreiro torna o debate ainda mais significativo. Afinal, preservar os objetos encontrados não significa apenas proteger peças arqueológicas, mas também reconhecer as memórias e práticas das comunidades que ajudaram a construir a história do território.
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