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Saúde & Bem Estar

Feira de Saúde em Terreiros aproxima população dos serviços do SUS

Redação Blé NewsRedação Blé News
22 de junho de 2026 às 23:19· Atualizado em 23/06/2026 às 22:39

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Feira de Saúde em Terreiros leva vacinação e prevenção ao Rio
Feira de Saúde em Terreiros leva vacinação e prevenção ao RioRodrigo Gorosito/SES RJ

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Evento reuniu vacinação, testes rápidos, ações educativas e valorização dos saberes ancestrais para ampliar o acesso à saúde e combater o racismo religioso.

A Feira de Saúde: Saberes Ancestrais dos Terreiros e o Cuidado na Atenção Primária à Saúde reuniu no último sábado (20), em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, representantes do Ministério da Saúde, da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) e da Secretaria Municipal de Saúde (SMS-Rio) em uma ação voltada à promoção da saúde, prevenção de doenças e combate às desigualdades no acesso aos serviços públicos. Realizada no Terreiro Ilê Asé D'Oluaie Ni Oyá, da Yalorixá Mãe Márcia Marçal, a iniciativa ofereceu vacinação contra a gripe, testes rápidos para HIV, sífilis, hepatites B e C, além de testagem para tuberculose. O evento também promoveu atividades culturais, debates sobre equidade em saúde, combate ao racismo religioso e valorização dos saberes tradicionais das religiões de matriz africana, reforçando o papel dos terreiros como espaços de acolhimento, cuidado e promoção da vida.

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Mais do que oferecer atendimento gratuito, a feira teve como proposta reduzir barreiras históricas que ainda dificultam o acesso da população negra e das comunidades tradicionais aos serviços públicos de saúde.

Durante toda a programação, moradores da região, integrantes do terreiro e visitantes puderam realizar exames preventivos, atualizar a carteira de vacinação e participar de rodas de conversa sobre saúde física, mental e espiritual.

A iniciativa faz parte de uma estratégia nacional que busca fortalecer a Atenção Primária à Saúde por meio da aproximação com espaços comunitários reconhecidos pela confiança construída junto às suas comunidades.

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Segundo a coordenadora de Saúde da População Negra da SES-RJ, Gabrielle Damasceno, reconhecer os terreiros como espaços de cuidado significa também enfrentar desigualdades históricas que impactam diretamente a qualidade de vida da população.

"Essa feira é um marco para a saúde pública. Levar ações de saúde para os terreiros é reconhecer esses espaços como importantes pontos de mobilização comunitária. Além de facilitar o acesso aos serviços de prevenção e vacinação, a iniciativa contribui para reduzir barreiras históricas, fortalecer o cuidado integral e promover a equidade em saúde. A feira também é uma forma de preservação cultural", destaca a gestora.

Feira de Saúde em Terreiros promove prevenção, vacinação e inclusão social — Foto: Rodrigo Gorosito/SES RJ

A programação foi além dos atendimentos de saúde.

O público acompanhou apresentações culturais, contação de histórias, ações educativas e uma feira de afroempreendedores que comercializaram roupas religiosas, artesanato, livros e gastronomia afro-brasileira.

As atividades reforçaram a importância dos saberes ancestrais como parte da promoção da saúde integral, valorizando aspectos físicos, emocionais, espirituais e comunitários.

Essa integração entre políticas públicas e tradições afro-brasileiras também contribui para combater o preconceito e fortalecer o respeito às religiões de matriz africana.

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A diarista Eliane Pacheco de Almeida, de 53 anos, aproveitou a oportunidade para realizar todos os testes rápidos disponibilizados pela equipe de saúde.

Segundo ela, manter os exames em dia é uma forma de proteger não apenas a própria saúde, mas também a das pessoas com quem convive diariamente.

Já Ana Cristina dos Santos Carvalho, de 59 anos, destacou a tranquilidade proporcionada pelos resultados dos exames e reforçou a importância da prevenção contínua.

Os depoimentos demonstram como ações descentralizadas conseguem alcançar pessoas que muitas vezes encontram dificuldades para acessar os serviços tradicionais de saúde.

Um momento simbólico marcou a Feira de Saúde em Terreiros

Mãe Márcia Marçal, matriarca do Ilê Asé D'Oluaie Ni Oyá consagrando o Zé Gotinha com um fio de Oxalá — Foto: Rodrigo Gorosito/SES RJ/Reprodução mãe Márcia Marçal

Um dos momentos mais emocionantes aconteceu antes do início dos debates.

Após a realização do tradicional xirê, conduzido por Mãe Márcia Marçal, a Yalorixá colocou um fio de contas (ilekés) de Obatalá (Oxalá), símbolo da paz, da vida e da criação, no personagem Zé Gotinha.

Ao realizar o gesto, declarou:

"Vida, que nos proporcione saúde a todos nós." E completou chamando o coro "Viva o SUS!".

Logo em seguida, o público respondeu em coro:

"Viva o SUS! Saúde sem racismo!"

A cena emocionou participantes e organizadores por representar a união entre ciência, espiritualidade, saúde pública e respeito à diversidade religiosa.

Dentro das religiões de matriz africana, o fio de contas possui profundo significado espiritual. Além de identificar a ligação com determinado orixá, representa proteção, ancestralidade, pertencimento e a continuidade da vida.

O gesto de vestir o Zé Gotinha com os ilekés simbolizou o encontro entre diferentes formas de cuidado, mostrando que políticas públicas e tradições culturais podem caminhar juntas na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Leia também: Abolição da escravidão: como o Estado criminalizou culturas negras

Durante a abertura oficial, Mãe Márcia Marçal chamou atenção para um tema que ainda recebe pouca visibilidade: a saúde mental da população de terreiro.

Segundo ela, muitas pessoas encontram nos terreiros acolhimento, escuta e fortalecimento emocional diante das dificuldades do cotidiano.

"Orí (cabeça) e Ará (corpo) precisam estar conectados e equilibrados", afirmou a sacerdotisa ao defender que o cuidado integral envolve corpo, mente, espiritualidade e comunidade.

Ela também destacou que grande parte da população não possui condições financeiras para manter acompanhamento psicológico particular, tornando ainda mais importante a atuação dos espaços comunitários como locais de acolhimento.

No futuro vamos nos lembrar de muitas coisas significativas que ocorreram nesta feira. Muita gente não tem dinheiro para pagar um psicólogo. Por isso, vários terreiros cuidam da saúde dos filhos de santo, da espiritualidade e do corpo. Orí (cabeça) e Ará (corpo) têm que estar conectados e equilibrados”, afirmou a Yalorixá. 


Projeto reconhece os terreiros como espaços de promoção da saúde

Feira de Saúde em Terreiros fortalece SUS e combate desigualdades — Foto: Rodrigo Gorosito/SES RJ

A Feira de Saúde integra o projeto "Saberes Ancestrais nos Terreiros e o Cuidado na Atenção Primária", iniciativa baseada em políticas públicas que reconhecem os povos e comunidades tradicionais de matriz africana como parceiros estratégicos do Sistema Único de Saúde (SUS).

A proposta está fundamentada em documentos como a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), a Política Nacional para Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro e de Matriz Africana (PNPTMA), a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), o Estatuto da Igualdade Racial e orientações da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

O projeto busca integrar, de forma ética e estruturada, conhecimentos tradicionais e práticas da Atenção Primária, respeitando valores como ancestralidade, oralidade, territorialidade, espiritualidade, memória, comunitarismo e equidade.

Cinco terreiros, um em cada região do Brasil, receberão a Feira de Saúde: Saberes Ancestrais nos Terreiros e o Cuidado na Atenção Primária, iniciativa que busca ampliar o acesso ao SUS, reduzir desigualdades e reconhecer os terreiros como espaços históricos de acolhimento, promoção da saúde e preservação cultural.

Ao todo, a iniciativa prevê a realização de cinco Feiras de Saúde, distribuídas pelas cinco regiões do Brasil, fortalecendo o diálogo entre o SUS e as comunidades tradicionais.

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