Lideranças de matrizes africanas se reúnem com Comando da PM para discutir abordagens em terreiros de MS

Encontro convocado pelo Instituto Yalodê ocorre em Campo Grande e pretende discutir denúncias, interrupções de cultos e racismo religioso.
Lideranças das religiões de matrizes africanas e ameríndias foram convocadas pelo Instituto Yalodê para uma reunião com o Comando da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, marcada para 16 de setembro de 2026, às 16h, no Parque dos Poderes, em Campo Grande. O encontro pretende discutir relatos de abordagens policiais consideradas indevidas, interrupções de cultos e denúncias que, segundo representantes das comunidades de terreiro, podem estar relacionadas à intolerância e ao racismo religioso.
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A mobilização ocorre em um momento de crescente debate sobre a forma como órgãos de segurança pública atendem ocorrências envolvendo comunidades religiosas de matriz africana. Para as lideranças, além da necessidade de combater a intolerância religiosa, é fundamental preparar os agentes públicos para reconhecer as particularidades culturais e religiosas dos terreiros.
Segundo dados apresentados pela Federação de Cultos Afro-Brasileiros e Ameríndios (Fecams), Mato Grosso do Sul possui cerca de 12 mil casas de culto ligadas aos chamados povos de terreiro. Esses espaços são responsáveis pela preservação de tradições religiosas, culturais e ancestrais transmitidas entre gerações.
Em 2024, o estado registrou 188 casos de racismo e 51 ocorrências relacionadas à intolerância religiosa, segundo dados atribuídos à Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).
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No cenário nacional, os registros do Disque 100 também apontam a vulnerabilidade das religiões de matriz africana. Candomblé, Umbanda e outras tradições afro-brasileiras estão entre os segmentos frequentemente atingidos por episódios de discriminação e violência motivados por intolerância religiosa.
Reunião com a Polícia Militar busca respostas para denúncias
De acordo com o Instituto Yalodê, o encontro com o comando da Polícia Militar tem como objetivo apresentar diretamente às autoridades as situações relatadas pelas comunidades de terreiro.
Babalorixá Augusto de Lógunẹ̀dẹ e a vereadora Luiza Ribeiro (PT) se reuniram com a coronel Neidy Nunes Barbosa Centurião, comandante da Polícia Militar — Foto: Reprodução/Instagram/Instituto Yalodê
Entre os problemas apontados estão abordagens policiais durante atividades religiosas e interrupções de cultos. A entidade afirma que algumas dessas ações seriam decorrentes de denúncias consideradas infundadas e motivadas por preconceito contra as religiões de matrizes africanas e ameríndias.
A proposta, segundo os organizadores, não é estabelecer um confronto com a Polícia Militar, mas criar um canal permanente de diálogo entre as comunidades religiosas e as forças de segurança.
O Instituto defende que a Polícia seja uma aliada na garantia da liberdade religiosa e na proteção das comunidades tradicionais.
| “Os atabaques não podem ser silenciados. A nossa fé e as nossas tradições exigem e merecem respeito”, afirma o convite divulgado pelo Instituto Yalodê. |
A expectativa é que pais, mães, filhos de santo, lideranças religiosas e apoiadores participem do encontro para apresentar suas experiências e contribuir para a construção de medidas de proteção.
O que as lideranças querem discutir
Entre as principais reivindicações estão o preparo dos policiais para lidar com manifestações religiosas, o respeito aos espaços sagrados e a necessidade de evitar que denúncias relacionadas a barulho sejam utilizadas para constranger ou interromper atividades religiosas sem a devida avaliação do contexto.
Para as comunidades de terreiro, a questão ultrapassa a discussão sobre perturbação do sossego.
Um terreiro é também um espaço de preservação de memória, cultura, ancestralidade e práticas religiosas. Por isso, uma abordagem policial realizada durante uma cerimônia pode ter impactos que vão além da ocorrência registrada.
Babalorixá relata visitas policiais ao terreiro
O babalorixá Augusto de Lógunẹ̀dẹ, presidente do Instituto Yalodê, afirma ter vivenciado situações envolvendo visitas policiais ao seu terreiro após denúncias que considera sem justificativa.
Protesto contra o racismo religioso em Campo Grande MS — Foto: Reprodução/Instagram/Instituto Yalodê
Segundo o relato apresentado à reportagem do Blé News, em uma dessas ocasiões um policial teria sugerido que ele mudasse o endereço do terreiro para evitar novas denúncias.
A declaração levanta uma questão central para as comunidades de axé: até que ponto um espaço religioso pode ser responsabilizado por reclamações que eventualmente tenham origem em preconceito contra sua própria existência?
Para os povos de terreiro, a sugestão do policial de simplesmente mudar de endereço não considera a relação espiritual e comunitária construída ao longo dos anos naquele espaço.
Em tradições como o Candomblé, o território do terreiro possui importância que não se limita à estrutura física. É nele que estão estabelecidos vínculos comunitários e elementos relacionados à ancestralidade e à prática religiosa.
Instituto Yalodê oferece orientação jurídica gratuita
A reunião com a Polícia Militar faz parte de uma mobilização mais ampla do Instituto Yalodê contra o racismo e a intolerância religiosa em Campo Grande.
Desde novembro de 2025, a entidade mantém um projeto com advogados voluntários para oferecer orientação jurídica gratuita a pessoas vítimas desses crimes.
Segundo o Instituto, até o momento dezenas de casos de intolerância religiosa já receberam auxílio jurídico por meio da iniciativa.
O projeto foi idealizado por Augusto de Lógunẹ̀dẹ, que atua há cerca de dez anos em iniciativas sociais na cidade.
A proposta é orientar vítimas sobre seus direitos e os caminhos jurídicos disponíveis diante de situações de discriminação, ameaças ou outras formas de violência motivadas por religião.
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Polícia Civil cria protocolo específico para vítimas de intolerância religiosa
A mobilização das comunidades de terreiro ocorre também após uma mudança recente na Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.
Em agosto de 2026, a instituição passou a adotar um protocolo específico para o atendimento de vítimas de discriminação por religião, crença, espiritualidade, ausência de religião ou convicção filosófica.
A medida foi estabelecida pela Portaria Normativa nº 281/2026, assinada pelo delegado-geral da Polícia Civil, Lupérsio Degerone Lucio, e publicada no Diário Oficial do Estado.
O protocolo determina que o atendimento seja realizado de maneira respeitosa, imparcial e sem julgamentos sobre a fé ou as convicções da vítima.
Os policiais também são orientados a permitir que a pessoa relate o ocorrido sem interrupções desnecessárias, constrangimentos ou questionamentos que possam ridicularizar ou colocar em dúvida sua religião.
Polícia Civil de MS criou protocolo específico para vítimas — Foto: Gerson Oliveira/Correio do Estado
A norma proíbe ainda comentários ofensivos, piadas, manifestações depreciativas e tentativas de influenciar a escolha religiosa de quem procura a instituição.
Símbolos, roupas, objetos sagrados e práticas religiosas também devem ser respeitados durante o atendimento, desde que não representem risco à segurança ou prejudiquem a investigação.
Protocolo prevê preservação de provas e capacitação
A nova regulamentação estabelece procedimentos para casos de discriminação religiosa ocorridos tanto presencialmente quanto pela internet.
Ofensas, ameaças, mensagens, publicações em redes sociais, vídeos, áudios e imagens devem ser preservados para auxiliar na investigação.
Quando houver danos a templos, terreiros ou objetos considerados sagrados, a orientação é preservar o local e documentar os elementos encontrados.
As regras também abrangem pessoas conduzidas, presas ou mantidas sob custódia. Sempre que possível, devem ser respeitadas vestimentas religiosas, objetos de devoção, práticas de fé e restrições alimentares relacionadas à religião.
A aplicação do protocolo será acompanhada pelo Núcleo Institucional de Cidadania da Polícia Civil, enquanto a Academia de Polícia Civil deverá manter ações de capacitação dos servidores sobre liberdade religiosa, discriminação e atendimento às vítimas.
Os registros policiais também deverão indicar, quando houver relação com a ocorrência, se existe suspeita de motivação religiosa.
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Reunião acontece em meio a cobranças por mais proteção
A reunião convocada pelo Instituto Yalodê coloca novamente em pauta a relação entre as comunidades de terreiro e as forças de segurança de Mato Grosso do Sul.
De um lado, o estado começa a adotar mecanismos específicos para qualificar o atendimento de vítimas de discriminação religiosa. Do outro, lideranças continuam relatando experiências que consideram inadequadas durante abordagens e ações policiais.
O encontro de 16 de setembro poderá ser uma oportunidade para aproximar as duas partes e transformar as denúncias apresentadas pelas comunidades em propostas concretas de prevenção e atuação.
Mais do que discutir barulho, denúncias ou procedimentos policiais, o debate envolve uma questão constitucional: como garantir que a liberdade religiosa seja respeitada também dentro dos terreiros?
Para as lideranças, combater a intolerância religiosa não significa apenas punir quem pratica ataques. Significa também garantir que agentes públicos estejam preparados para reconhecer e proteger a diversidade religiosa existente no país.
Serviço
Reunião com o Comando da Polícia Militar de MS
📅 Data: 16 de setembro de 2026
🕐 Horário: 16h
📍 Local: Avenida Desembargador Leão Neto do Carmo, 1203 – Parque dos Poderes, Campo Grande (MS)
O Instituto Yalodê convida pais, mães, filhos de santo, lideranças religiosas e apoiadores das religiões de matrizes africanas e ameríndias para participar do encontro.




