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Lideranças de matrizes africanas se reúnem com Comando da PM para discutir abordagens em terreiros de MS

Redação Blé NewsRedação Blé News
15 de setembro de 2026 às 04:40

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Manifestação contra o racismo religioso em Campo Grande MS
Manifestação contra o racismo religioso em Campo Grande MSReprodução/Instagram/Instituto Yalodê

Encontro convocado pelo Instituto Yalodê ocorre em Campo Grande e pretende discutir denúncias, interrupções de cultos e racismo religioso.

Lideranças das religiões de matrizes africanas e ameríndias foram convocadas pelo Instituto Yalodê para uma reunião com o Comando da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, marcada para 16 de setembro de 2026, às 16h, no Parque dos Poderes, em Campo Grande. O encontro pretende discutir relatos de abordagens policiais consideradas indevidas, interrupções de cultos e denúncias que, segundo representantes das comunidades de terreiro, podem estar relacionadas à intolerância e ao racismo religioso.

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A mobilização ocorre em um momento de crescente debate sobre a forma como órgãos de segurança pública atendem ocorrências envolvendo comunidades religiosas de matriz africana. Para as lideranças, além da necessidade de combater a intolerância religiosa, é fundamental preparar os agentes públicos para reconhecer as particularidades culturais e religiosas dos terreiros.

Segundo dados apresentados pela Federação de Cultos Afro-Brasileiros e Ameríndios (Fecams), Mato Grosso do Sul possui cerca de 12 mil casas de culto ligadas aos chamados povos de terreiro. Esses espaços são responsáveis pela preservação de tradições religiosas, culturais e ancestrais transmitidas entre gerações.

Em 2024, o estado registrou 188 casos de racismo e 51 ocorrências relacionadas à intolerância religiosa, segundo dados atribuídos à Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).

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No cenário nacional, os registros do Disque 100 também apontam a vulnerabilidade das religiões de matriz africana. Candomblé, Umbanda e outras tradições afro-brasileiras estão entre os segmentos frequentemente atingidos por episódios de discriminação e violência motivados por intolerância religiosa.

Reunião com a Polícia Militar busca respostas para denúncias

De acordo com o Instituto Yalodê, o encontro com o comando da Polícia Militar tem como objetivo apresentar diretamente às autoridades as situações relatadas pelas comunidades de terreiro.

O babalorixá Augusto de Lógunẹ̀dẹ e a vereadora Luiza Ribeiro (PT) se reuniram com a coronel Neidy Nunes Barbosa Centurião, comandante da Polícia Militar, para apresentar as demandas das comunidades de terreiro de Campo Grande (MS) e denunciar as inúmeras tentativas de silenciar os atabaques na cidade.Babalorixá Augusto de Lógunẹ̀dẹ e a vereadora Luiza Ribeiro (PT) se reuniram com a coronel Neidy Nunes Barbosa Centurião, comandante da Polícia Militar — Foto: Reprodução/Instagram/Instituto Yalodê

Entre os problemas apontados estão abordagens policiais durante atividades religiosas e interrupções de cultos. A entidade afirma que algumas dessas ações seriam decorrentes de denúncias consideradas infundadas e motivadas por preconceito contra as religiões de matrizes africanas e ameríndias.

A proposta, segundo os organizadores, não é estabelecer um confronto com a Polícia Militar, mas criar um canal permanente de diálogo entre as comunidades religiosas e as forças de segurança.

O Instituto defende que a Polícia seja uma aliada na garantia da liberdade religiosa e na proteção das comunidades tradicionais.

Os atabaques não podem ser silenciados. A nossa fé e as nossas tradições exigem e merecem respeito”, afirma o convite divulgado pelo Instituto Yalodê.

A expectativa é que pais, mães, filhos de santo, lideranças religiosas e apoiadores participem do encontro para apresentar suas experiências e contribuir para a construção de medidas de proteção.

O que as lideranças querem discutir

Entre as principais reivindicações estão o preparo dos policiais para lidar com manifestações religiosas, o respeito aos espaços sagrados e a necessidade de evitar que denúncias relacionadas a barulho sejam utilizadas para constranger ou interromper atividades religiosas sem a devida avaliação do contexto.

Para as comunidades de terreiro, a questão ultrapassa a discussão sobre perturbação do sossego.

Um terreiro é também um espaço de preservação de memória, cultura, ancestralidade e práticas religiosas. Por isso, uma abordagem policial realizada durante uma cerimônia pode ter impactos que vão além da ocorrência registrada.

Babalorixá relata visitas policiais ao terreiro

O babalorixá Augusto de Lógunẹ̀dẹ, presidente do Instituto Yalodê, afirma ter vivenciado situações envolvendo visitas policiais ao seu terreiro após denúncias que considera sem justificativa.

Protesto contra o racismo religioso em Campo Grande MSProtesto contra o racismo religioso em Campo Grande MS — Foto: Reprodução/Instagram/Instituto Yalodê

Segundo o relato apresentado à reportagem do Blé News, em uma dessas ocasiões um policial teria sugerido que ele mudasse o endereço do terreiro para evitar novas denúncias.

A declaração levanta uma questão central para as comunidades de axé: até que ponto um espaço religioso pode ser responsabilizado por reclamações que eventualmente tenham origem em preconceito contra sua própria existência?

Para os povos de terreiro, a sugestão do policial de simplesmente mudar de endereço não considera a relação espiritual e comunitária construída ao longo dos anos naquele espaço.

Em tradições como o Candomblé, o território do terreiro possui importância que não se limita à estrutura física. É nele que estão estabelecidos vínculos comunitários e elementos relacionados à ancestralidade e à prática religiosa.

Instituto Yalodê oferece orientação jurídica gratuita

A reunião com a Polícia Militar faz parte de uma mobilização mais ampla do Instituto Yalodê contra o racismo e a intolerância religiosa em Campo Grande.

Desde novembro de 2025, a entidade mantém um projeto com advogados voluntários para oferecer orientação jurídica gratuita a pessoas vítimas desses crimes.

Segundo o Instituto, até o momento dezenas de casos de intolerância religiosa já receberam auxílio jurídico por meio da iniciativa.

O projeto foi idealizado por Augusto de Lógunẹ̀dẹ, que atua há cerca de dez anos em iniciativas sociais na cidade.

A proposta é orientar vítimas sobre seus direitos e os caminhos jurídicos disponíveis diante de situações de discriminação, ameaças ou outras formas de violência motivadas por religião.

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Polícia Civil cria protocolo específico para vítimas de intolerância religiosa

A mobilização das comunidades de terreiro ocorre também após uma mudança recente na Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.

Em agosto de 2026, a instituição passou a adotar um protocolo específico para o atendimento de vítimas de discriminação por religião, crença, espiritualidade, ausência de religião ou convicção filosófica.

A medida foi estabelecida pela Portaria Normativa nº 281/2026, assinada pelo delegado-geral da Polícia Civil, Lupérsio Degerone Lucio, e publicada no Diário Oficial do Estado.

O protocolo determina que o atendimento seja realizado de maneira respeitosa, imparcial e sem julgamentos sobre a fé ou as convicções da vítima.

Os policiais também são orientados a permitir que a pessoa relate o ocorrido sem interrupções desnecessárias, constrangimentos ou questionamentos que possam ridicularizar ou colocar em dúvida sua religião.

Polícia Civil de MS criou protocolo específico para vítimas.Polícia Civil de MS criou protocolo específico para vítimas  — Foto: Gerson Oliveira/Correio do Estado

A norma proíbe ainda comentários ofensivos, piadas, manifestações depreciativas e tentativas de influenciar a escolha religiosa de quem procura a instituição.

Símbolos, roupas, objetos sagrados e práticas religiosas também devem ser respeitados durante o atendimento, desde que não representem risco à segurança ou prejudiquem a investigação.

Protocolo prevê preservação de provas e capacitação

A nova regulamentação estabelece procedimentos para casos de discriminação religiosa ocorridos tanto presencialmente quanto pela internet.

Ofensas, ameaças, mensagens, publicações em redes sociais, vídeos, áudios e imagens devem ser preservados para auxiliar na investigação.

Quando houver danos a templos, terreiros ou objetos considerados sagrados, a orientação é preservar o local e documentar os elementos encontrados.

As regras também abrangem pessoas conduzidas, presas ou mantidas sob custódia. Sempre que possível, devem ser respeitadas vestimentas religiosas, objetos de devoção, práticas de fé e restrições alimentares relacionadas à religião.

A aplicação do protocolo será acompanhada pelo Núcleo Institucional de Cidadania da Polícia Civil, enquanto a Academia de Polícia Civil deverá manter ações de capacitação dos servidores sobre liberdade religiosa, discriminação e atendimento às vítimas.

Os registros policiais também deverão indicar, quando houver relação com a ocorrência, se existe suspeita de motivação religiosa.

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Reunião acontece em meio a cobranças por mais proteção

A reunião convocada pelo Instituto Yalodê coloca novamente em pauta a relação entre as comunidades de terreiro e as forças de segurança de Mato Grosso do Sul.

De um lado, o estado começa a adotar mecanismos específicos para qualificar o atendimento de vítimas de discriminação religiosa. Do outro, lideranças continuam relatando experiências que consideram inadequadas durante abordagens e ações policiais.

O encontro de 16 de setembro poderá ser uma oportunidade para aproximar as duas partes e transformar as denúncias apresentadas pelas comunidades em propostas concretas de prevenção e atuação.

Mais do que discutir barulho, denúncias ou procedimentos policiais, o debate envolve uma questão constitucional: como garantir que a liberdade religiosa seja respeitada também dentro dos terreiros?

Para as lideranças, combater a intolerância religiosa não significa apenas punir quem pratica ataques. Significa também garantir que agentes públicos estejam preparados para reconhecer e proteger a diversidade religiosa existente no país.

Serviço

Reunião com o Comando da Polícia Militar de MS

📅 Data: 16 de setembro de 2026
🕐 Horário: 16h
📍 Local: Avenida Desembargador Leão Neto do Carmo, 1203 – Parque dos Poderes, Campo Grande (MS)

O Instituto Yalodê convida pais, mães, filhos de santo, lideranças religiosas e apoiadores das religiões de matrizes africanas e ameríndias para participar do encontro.