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Religiões afro-brasileiras reforçam resistência histórica em meio à disputa presidencial

Alexandro OliverAlexandro Oliver
10 de outubro de 2026 às 20:34

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Povo de terreiro relembra perseguições e defende democracia.
Povo de terreiro relembra perseguições e defende democracia.Joa_Souza/Getty Images

Com Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno, lideranças religiosas resgatam a história de repressão e defendem seus posicionamentos políticos.

A disputa presidencial de 2026 chegou ao segundo turno e reacendeu, entre lideranças e comunidades de religiões de matriz africana, discussões sobre liberdade religiosa, racismo e democracia. Após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avançaram para a etapa decisiva, marcada para 25 de outubro. Nesse cenário, vídeos, cartas abertas e manifestações públicas de representantes de terreiros passaram a relacionar a escolha eleitoral à memória de perseguições históricas contra o Candomblé, a Umbanda e outras expressões da cultura negra. As manifestações apresentam diferentes argumentos, mas compartilham uma preocupação: a defesa dos direitos constitucionais, da liberdade de culto e da continuidade de tradições transmitidas entre gerações.

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A memória de repressão e a luta pela liberdade religiosa

A mobilização política de integrantes das religiões afro-brasileiras está diretamente relacionada à trajetória histórica de repressão, racismo e luta por reconhecimento vivida por essas comunidades. Da República Velha à ditadura militar, terreiros foram alvo de operações policiais, apreensões de objetos sagrados, vigilância e diferentes formas de discriminação.

Embora a Constituição de 1891 tenha estabelecido a separação entre Igreja e Estado e reconhecido princípios de liberdade religiosa, a garantia formal não se traduziu, na prática, em proteção efetiva para todas as tradições. As religiões de matriz africana continuaram sendo alvo de desconfiança e perseguição por parte de autoridades e setores da sociedade.

O Código Penal de 1890 também contribuiu para esse cenário ao prever dispositivos relacionados ao chamado espiritismo, à magia e ao uso de sortilégios, que podiam ser utilizados para reprimir práticas religiosas e culturais. Em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural, essas categorias serviram de instrumento para atingir manifestações associadas à população negra.

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A repressão não se limitou aos espaços sagrados. Expressões culturais, formas de organização comunitária e tradições afro-brasileiras também enfrentaram criminalização, preconceito e tentativas de controle. Ao longo do tempo, porém, essas comunidades construíram estratégias de resistência e reivindicaram o direito de preservar seus rituais, transmitir seus conhecimentos e participar da vida pública.

Esse processo não ocorreu de maneira uniforme. As políticas adotadas variaram conforme os períodos históricos, entre avanços legais, práticas repressivas e disputas pelo reconhecimento da diversidade religiosa brasileira. A distância entre a liberdade de crença prevista em lei e sua efetiva garantia ajuda a explicar por que a defesa dos direitos das comunidades de terreiro também passou a ocupar espaço na agenda política.

Sete em cada 10 secretarias municipais de educação descumprem lei que obriga ensino sobre história e cultura afro-brasileira nas escolasMatéria do Jornal Nacional, mostra que sete em cada 10 secretarias municipais de educação descumprem lei que obriga ensino sobre história e cultura afro-brasileira nas escolas no país. — Foto: Reprodução/g1

A partir dos anos 2000, iniciativas institucionais voltadas à igualdade racial e ao reconhecimento das contribuições da população negra ampliaram esse debate. A Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, e a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2003, representaram marcos importantes nesse processo.

Outro avanço foi o Decreto nº 6.040/2007, que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, incluindo comunidades tradicionais de matriz africana no reconhecimento de suas formas próprias de organização, seus territórios e seus conhecimentos ancestrais.

Esse percurso histórico ajuda a compreender por que a participação política de integrantes das religiões afro-brasileiras envolve tanto a disputa por representação quanto a defesa de direitos fundamentais. A mobilização dessas comunidades está ligada à necessidade de combater o racismo religioso, ampliar a proteção aos terreiros e garantir que suas tradições sejam reconhecidas como parte da diversidade cultural e religiosa do país.

Ao mesmo tempo, a relação entre religião e política exige atenção à pluralidade de posições existentes dentro dessas comunidades, que não constituem um bloco homogêneo. Suas prioridades, alianças e formas de participação variam conforme os contextos sociais e políticos. Ainda assim, a experiência histórica de repressão e resistência ajuda a explicar a importância atribuída à representação institucional e à participação nos processos democráticos.

O desafio está em transformar essa mobilização em avanços concretos, capazes de reduzir a discriminação e assegurar direitos independentemente da crença de cada cidadão. A presença do povo de terreiro no debate político amplia a discussão sobre quem participa das decisões do país e quais grupos têm suas demandas reconhecidas. Mais do que ocupar espaços de poder, trata-se de fortalecer uma democracia em que a liberdade religiosa, a igualdade de direitos e o respeito à diversidade sejam garantias efetivas para toda a sociedade.

O legado de Ìyá Simplícia de Ògún e a tradição de coragem

Ìyá Simplícia de ÒgúnMãe Simplícia enfrentou a repressão ao Candomblé em 1952 — Foto: Reprodução/Facebook/Casa de Oxumarê

A resistência de hoje reflete a trajetória de grandes matriarcas do passado. Em 1952, ao lado de ícones como Mãe Menininha do Gantois e Mãe Senhora, Ìyá Simplícia aproveitou a visita do então presidente Getúlio Vargas à Bahia para denunciar pessoalmente as violências policiais e o desrespeito às casas de axé. Sua firmeza em defender a liberdade de culto tornou-se um símbolo de dignidade e cidadania.

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Eleições 2026: cartas abertas e posicionamento político dos terreiros

As marcas do passado explicam por que o momento político atual é visto com extrema gravidade pelas comunidades tradicionais. Nas redes sociais, o vídeo-manifesto "O POVO DE TERREIRO NÃO SE CALA!", produzido pela Odara Produções, reuniu lideranças religiosas para reafirmar o compromisso com a diversidade e a memória ancestral.

Em paralelo, o Ilê Alaketu Axé Airá (Axé Batistini) divulgou um posicionamento oficial ressaltando que, embora não possua vínculo partidário, a defesa da Constituição de 1988 exige lado na disputa presidencial. Em nota, o terreiro lembrou que os povos tradicionais sobreviveram à Monarquia e às Ditaduras, convocando seus adeptos a votarem contra discursos de ódio e retrocessos ambientais e sociais.

Axé Batistini

A conscientização política também marcou o depoimento de Mãe Marcia Marçal, do Ilê Asé D'Oluaiyè Ni Oyá. A liderança compartilhou uma reflexão sobre a própria juventude: "Eu era muito negligente com o meu voto, sempre dizia que não estava nem aí para a política", relatou. Hoje, consciente do impacto das decisões políticas na criação de políticas públicas de saúde, educação e no fortalecimento da democracia, ela reforçou o apelo pela participação do público. 

"Vamos todos participar da festa da democracia!", escreveu na legenda da publicação.

O apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), também veio de Luiz Carlos Obalodé, presidente do Ilê Oiá Messã Orum (Casa de Pai Bobó) — uma das casas mais antigas da nação Ketu no estado de São Paulo. Em publicação acompanhada por uma colagem ao lado do candidato, o ogã declarou: "Sem luta não há vitória, não há conquistas. 13 na cabeça! A luta continua, Lula nosso presidente!".

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Mobilização nas redes sociais convoca fiéis às urnas no segundo turno

A mobilização ganhou ainda mais força após a repercussão de um vídeo de sete minutos gravado por Pai André de Xangô, da Tenda Umbandista Mensageiros de Aruanda. Na gravação, que viralizou nas redes sociais, o babalorixá deu uma verdadeira aula de história ao relembrar a repressão sofrida pelos terreiros durante a ditadura militar e convocou os fiéis a uma reflexão crítica diante das eleições de 25 de outubro:

"Precisamos botar o pezinho no chão, abrir o olho para a vida e nos dar conta da direção em que estamos indo", alertou.

À medida que a votação decisiva se aproxima, o povo de axé reafirma que o exercício do voto ultrapassa escolhas partidárias pontuais: trata-se de um movimento coletivo para garantir que as futuras gerações não precisem voltar a praticar sua fé na clandestinidade.