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Religiões afro ganham adeptos, mas perdem espaço político

Redação Blé NewsRedação Blé News
21 de setembro de 2026 às 14:09

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Religiões afro cobram espaço nas eleições de 2026
Religiões afro cobram espaço nas eleições de 2026Eric Ty Odé/Divulgação

Com 1,8 milhão de adeptos, segmento questiona baixa representação e cobra atenção às suas demandas nas eleições de 2026.

Enquanto campanhas eleitorais disputam abertamente o voto de grandes grupos religiosos, praticantes de religiões de matriz africana afirmam que continuam pouco representados no debate político de 2026. O tema ganha peso diante dos dados do Censo Demográfico 2022, do IBGE, segundo os quais a população que se declarou adepta de Umbanda e Candomblé passou de 0,3% em 2010 para cerca de 1% em 2022, chegando a aproximadamente 1,8 milhão de pessoas. A categoria do Censo inclui outras religiões afro-brasileiras. Para religiosos e pesquisadores ouvidos na reportagem, a baixa presença nas campanhas está relacionada, entre outros fatores, ao histórico de intolerância religiosa e ao receio de muitos praticantes de exporem publicamente sua fé. O resultado, avaliam, é uma contradição: um segmento que cresceu numericamente ainda encontra dificuldades para se enxergar como prioridade na agenda eleitoral.

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Religiões afro nas eleições: onde está a representação?

A percepção de invisibilidade não significa ausência de participação política. Pelo contrário. Lideranças religiosas e pesquisadores destacam que os terreiros são espaços de convivência, organização comunitária, circulação de conhecimento e construção de redes de solidariedade.

O pai de santo e pesquisador do Grupo de Pesquisas sobre Povos de Terreiro da Universidade Federal Fluminense (UFF), Leonardo Vieira, afirma que ainda existe uma visão equivocada sobre a capacidade de organização política dos povos de terreiro.

Segundo ele, a política também está presente no cotidiano dessas comunidades, em relações que envolvem economia, saúde, educação, tecnologia e organização coletiva.

"Essa organização política começa dentro dos terreiros nas suas relações comunitárias e coletivas de organização, economia, de saúde, de educação, de tecnologia, e que é uma forma de fazer política diferente."

A questão, portanto, não seria apenas quantos eleitores praticam essas religiões, mas como suas demandas aparecem no discurso dos candidatos e nas propostas apresentadas durante a campanha.

Em uma eleição marcada pela disputa por diferentes segmentos religiosos, essa discussão coloca em evidência uma questão central: a liberdade religiosa e o combate à intolerância também fazem parte da agenda eleitoral?

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O que dizem os praticantes sobre a campanha eleitoral

A advogada e umbandista Lívia dos Santos afirma que é difícil para pessoas de religiões de matriz africana reconhecerem sua fé representada por políticos.

"É muito difícil a gente, que é de religião de matriz africana, se ver representado pelos políticos."

Na avaliação dela, essa dificuldade está relacionada ao histórico de marginalização e criminalização de práticas religiosas ligadas às tradições africanas.

"A gente tá falando, em uma última análise, de uma sociedade que não se permite conhecer essas religiões, justamente por todo o histórico de marginalização, criminalização dos povos que sempre cultuaram o orixá", analisa ela.

O relato ajuda a explicar por que a participação política desse eleitorado não pode ser analisada apenas pela quantidade de pessoas que declaram determinada religião.

Padê (farofa) para Exu na ruaPadê (farofa) para Exú na rua — Foto: Reprodução

Existe também uma dimensão social: o direito de assumir publicamente uma crença sem sofrer discriminação, violência ou constrangimento.

O tema ganha ainda mais relevância em períodos eleitorais, quando candidatos ampliam a presença em templos, festas religiosas, eventos comunitários e espaços de representação social.

Para pesquisadores citados na pauta, a aproximação com povos de terreiro enfrenta obstáculos específicos porque a exposição pública desses grupos ainda pode representar um risco em determinados contextos.

Número de adeptos de religiões afro triplicou

Os dados demográficos ajudam a dimensionar a mudança.

Entre 2010 e 2022, a proporção de brasileiros que se declararam praticantes de Umbanda e Candomblé passou de 0,3% para 1,05%, segundo dados do Censo 2022. Em números absolutos, são aproximadamente 1,8 milhão de pessoas.

O IBGE, porém, faz uma ressalva importante: a categoria “Umbanda e Candomblé” inclui outras religiões afro-brasileiras e não separa estatisticamente todas essas tradições individualmente.

O crescimento também aparece na distribuição territorial. Dados divulgados a partir do Censo mostram que Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Distrito Federal estão entre os estados com maiores proporções de pessoas que declararam essas religiões.

Esse cenário amplia o debate sobre representatividade. O crescimento demográfico não significa, automaticamente, maior presença institucional ou política. Mas mostra que existe um eleitorado identificado com essas tradições que pode ser ignorado apenas sob o argumento de ser numericamente menor que católicos e evangélicos.

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Intolerância religiosa ainda pesa no debate político

A discussão sobre representação também está ligada à segurança e à liberdade de culto.

Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania mostram que o Disque 100 recebeu 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Em 2024, haviam sido registradas 2.472 violações motivadas por intolerância religiosa.

Entre as religiões identificadas nos registros, as tradições de matriz africana aparecem entre as mais atingidas. No período analisado, foram contabilizados 228 registros envolvendo Umbanda, 161 envolvendo Candomblé, 47 classificados como Umbanda e Candomblé e 40 relacionados a outras religiões afro-brasileiras.

São Paulo concentrou 667 denúncias, seguido por Rio de Janeiro, com 446, Minas Gerais, com 323, e Bahia, com 211.

 2.774 denúncias de intolerância religiosa foram registradas pelo Disque 100 entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. 

Os números ajudam a colocar a liberdade religiosa dentro de uma discussão mais ampla sobre direitos humanos e políticas públicas.

O que diz a legislação sobre intolerância religiosa

O Código Penal prevê, no artigo 208, punição para quem escarnece publicamente de alguém por motivo de crença ou função religiosa, impede ou perturba cerimônia ou prática de culto ou vilipendia publicamente ato ou objeto de culto religioso. A pena prevista é de detenção de um mês a um ano ou multa. Quando há violência, a pena é aumentada em um terço, sem prejuízo da punição correspondente à própria violência.

A legislação brasileira também possui outras normas relacionadas à proteção contra discriminação e racismo, o que torna a discussão jurídica mais ampla do que apenas o artigo 208.

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Eleitorado afro quer ser ouvido para além da religião

A discussão levantada por religiosos e pesquisadores não se resume a pedir que candidatos façam visitas a terreiros durante a campanha.

A reivindicação envolve reconhecimento político, participação social e inclusão de pautas relacionadas à liberdade religiosa, combate à discriminação, proteção dos territórios tradicionais e valorização da cultura afro-brasileira.

Também existe uma questão de linguagem. Para quem vive dentro dessas comunidades, falar com povos de terreiro não significa apenas adaptar uma agenda eleitoral. Significa compreender que religião, cultura, ancestralidade, educação, saúde, economia e organização comunitária podem estar conectadas.

O desafio para as campanhas de 2026, nesse contexto, é transformar uma aproximação pontual em diálogo político efetivo.

Com 1,8 milhão de brasileiros declarando pertencimento à categoria Umbanda e Candomblé no Censo 2022, o segmento está longe de ser inexistente no mapa religioso brasileiro.

A questão colocada por praticantes e estudiosos é outra: quando esse eleitorado será percebido também como parte legítima da conversa política nacional?

Com informações da Agência Brasil

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