BleNews
Cultura

Casa de preto também é academia: o que o samba ensina

23 de setembro de 2026 às 06:18· Atualizado em 23/09/2026 às 06:26

Compartilhar notícia

Desfile do Carnaval 2026 do Império Serrano levou a homenageada, Conceição Evaristo, no abre-alas
Desfile do Carnaval 2026 do Império Serrano levou a homenageada, Conceição Evaristo, no abre-alasCarlos Elias /Agência O Dia

Do samba-enredo à ancestralidade, o Carnaval de 2026 mostrou como comunidades negras também produzem e preservam conhecimento.

Há muito tempo o samba nos ensina. Talvez parte do Brasil ainda não tenha aprendido a ouvi-lo dessa maneira.

Uma escola de samba não entra na avenida apenas para disputar notas, encantar arquibancadas ou fazer o corpo acompanhar uma bateria. Ela conta histórias. Recupera nomes. Reúne memórias que nem sempre chegaram aos livros escolares e conhecimentos que, durante séculos, sobreviveram pela oralidade, pelas famílias, pelos terreiros, pelas rodas de samba e pela resistência das comunidades negras.

📱> Entre no canal do Blé News no WhatsApp

Foi impossível assistir ao Carnaval de 2026 sem pensar nisso.

Em São Paulo e no Rio de Janeiro, duas escolas escolheram colocar as mulheres negras no centro de suas narrativas. A Mocidade Unida da Mooca apresentou Gèlèdés – Agbara Obinrin, enquanto o Império Serrano levou à Marquês de Sapucaí Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu, homenagem à escritora Conceição Evaristo.

São enredos diferentes. Histórias diferentes. Cidades diferentes.

Mas existe entre eles um encontro poderoso: a mulher negra aparece como alguém que pensa, escreve, ensina, preserva memórias e produz conhecimento.

E uma frase cantada pelo Império Serrano parece resumir tudo:

“Casa de preto também é academia.”

Não se trata de diminuir a universidade. Trata-se de ampliar nossa ideia de conhecimento.

Conceição Evaristo atravessa a avenida

No Rio de Janeiro, o Império Serrano transformou a literatura em Carnaval.

O enredo Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves, nasceu inspirado na obra e na trajetória de Conceição Evaristo. A proposta aproximou personagens, experiências biográficas e o conceito de escrevivência, criado pela escritora para nomear uma escrita profundamente relacionada às experiências e memórias das mulheres negras.

O samba teve autoria de Hamilton Fofão, Dudu Senna, Leandro Maninho, Cláudio Russo, Lico Monteiro, Jorginho da Flor, Silvio Romai, Marco Aurélio, Victor Mendes, Mateus Pranto e Gabriel Simões.

É importante registrar esses nomes.

Porque falar em produção de conhecimento também significa reconhecer quem produz a palavra que milhares de pessoas cantam. O samba-enredo não nasce espontaneamente na avenida: há pesquisa, criação, composição, negociação de sentidos e um trabalho coletivo até que aquela narrativa seja entregue à comunidade.

Conceição Evaristo no desfile do Império Serrano, no Carnaval de 2026. Ble NewsConceição Evaristo no desfile do Império Serrano, no Carnaval de 2026. A escritora, sua obra e suas “escrevivências” foram transformadas em narrativa carnavalesca na Marquês de Sapucaí. — Foto: Allan Duffes/Carnavalesco

Ao transformar a obra de Conceição Evaristo em samba-enredo, o Império realizou algo que me parece particularmente significativo: a palavra escrita retornou à oralidade.

O livro virou canto.

A personagem ganhou corpo.

A memória individual encontrou milhares de vozes.

E a avenida se transformou, por alguns minutos, em uma enorme sala de leitura sem paredes.

O artigo acadêmico que deu origem a esta reflexão analisava justamente essa passagem: a escrevivência deixa de permanecer apenas no livro e passa a circular por meio da música, do canto e da performance coletiva.

Quando o samba aproxima Conceição de Ponciá Vicêncio, de Olhos d’água, das ancestrais e das mulheres que vieram antes dela, a homenagem ultrapassa a biografia de uma escritora. Conceição passa a representar uma memória compartilhada por muitas mulheres negras brasileiras.

Há aí algo essencial.

Durante muito tempo, mãos negras foram representadas quase exclusivamente como mãos destinadas ao trabalho braçal, ao serviço e ao cuidado dos outros. O samba desloca esse imaginário: são mãos que escrevem, criam poesia, registram memória e interpretam o Brasil.

E isso também é produção intelectual.

Quem decide onde mora o conhecimento?

A pergunta parece simples, mas não é.

Quem decidiu que conhecimento legítimo é somente aquele publicado em livros, reconhecido por universidades ou validado pelas instituições tradicionais?

Sueli Carneiro utiliza o conceito de epistemicídio para discutir os processos pelos quais os conhecimentos produzidos pelas populações negras foram historicamente desqualificados ou apagados. No artigo acadêmico que antecede este texto, o conceito ajudou a compreender por que reconhecer os saberes produzidos nas comunidades negras é muito mais do que falar em representatividade.

É também discutir quem recebeu historicamente autorização para ser reconhecido como alguém que sabe.

Há conhecimento na escrita, evidentemente.

Mas há conhecimento na oralidade.

Na experiência.

No corpo.

Na música.

Na memória dos mais velhos.

Nos ritos.

Naquilo que uma geração ensina à seguinte sem jamais chamar aquilo de aula.

Talvez seja justamente por isso que “Casa de preto também é academia” provoque tanto.

A frase muda o endereço simbólico do conhecimento.

Quando as ancestrais entram na avenida

Em São Paulo, a Mocidade Unida da Mooca seguiu outro caminho para chegar a uma questão semelhante.

Em sua estreia no Grupo Especial, apresentou Gèlèdés – Agbara Obinrin, enredo dedicado à força, à ancestralidade e ao protagonismo das mulheres negras, em diálogo com o Geledés – Instituto da Mulher Negra. A ficha oficial da Liga-SP registra o samba de Lucas Donato, Gui Cruz, Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Marcos Vinicius, Vitor Gabriel, Biel, Mateus Pranto e Willian Tadeu.

Aqui, não há uma única mulher como eixo da narrativa.

Há muitas.

Há mães.

Há ancestrais.

Há divindades.

Há mulheres que preservam saberes, organizam comunidades, cuidam, lideram e resistem.

Samba-enredo da Mocidade Unida da Mooca, em homenagem a Geledés, emociona integrantes da organização - Geledés. Ble NewsMulheres reunidas na quadra da Mocidade Unida da Mooca durante a apresentação do samba-enredo em homenagem ao Geledés – Instituto da Mulher Negra. A imagem materializa uma das ideias centrais do enredo: conhecimento, ancestralidade e resistência também são construções coletivas. — Foto: Geledes.org

O próprio título ajuda a compreender a proposta. Agbara Obinrin remete à força ou ao poder da mulher, enquanto Gèlèdés se relaciona à tradição das grandes mães ancestrais iorubás. No samba, Iyás, Yabás e Yamis não aparecem como simples referências decorativas a uma África distante.

Elas carregam formas de interpretar o mundo.

E aqui reside uma questão fundamental: religiosidade também pode guardar conhecimento.

Nas tradições de matriz africana, muito do que atravessou gerações não precisou de papel para sobreviver. Sobreviveu na palavra pronunciada, no canto, na dança, nos gestos, nas rezas, nos alimentos, nos rituais e na convivência comunitária.

O artigo acadêmico que fundamenta este texto chama atenção exatamente para isso: a oralidade pode funcionar como uma verdadeira tecnologia de memória e comunicação coletiva.

Quando a escola de samba leva esses saberes para o Sambódromo, portanto, não está simplesmente “mostrando uma cultura”.

Está fazendo essa cultura falar por si.

>>>🗒️Tem alguma sugestão de reportagem ou denúncia? Envie para o Blé News.<<<

A ancestralidade não mora somente no passado

Há uma tendência de associarmos ancestralidade a algo distante.

Como se olhar para as ancestrais significasse olhar para trás.

Discordo dessa compreensão.

Ancestralidade também é presente. E, sobretudo, possibilidade de futuro.

Somos atravessados pelas pessoas que vieram antes de nós: pelas palavras que aprendemos, pelos gestos que repetimos, pelas receitas que guardamos, pelas histórias que ouvimos, pelas crenças que nos sustentam e até pelas maneiras como aprendemos a enfrentar o mundo.

Nos dois sambas, essa presença é evidente.

No Império Serrano, Conceição Evaristo escreve acompanhada simbolicamente pelas mulheres que a antecederam. Na Mocidade Unida da Mooca, as grandes mães ancestrais atravessam o tempo e chegam ao presente como referências de força, conhecimento e organização coletiva.

São caminhos distintos para uma afirmação semelhante:

ninguém produz conhecimento sozinho.

E o samba ensina

Talvez este seja o ponto de que mais gosto nessa discussão.

As escolas de samba ensinam sem necessariamente anunciar que estão ensinando.

Quem acompanha um enredo pode descobrir uma escritora.

Pode procurar um livro.

Pode aprender uma palavra em iorubá.

Pode conhecer uma personagem histórica.

Pode perguntar quem foi determinada mulher.

Pode descobrir uma divindade.

Pode pesquisar uma história que jamais apareceu em seu livro escolar.

Pode, inclusive, discordar e continuar pesquisando.

Isso também é educação.

Paulo Freire nos ensinou a compreender o conhecimento como construção compartilhada. E o Carnaval brasileiro talvez seja um dos exemplos mais extraordinários dessa possibilidade.

Milhares de pessoas aprendem um samba. Cantam juntas. Pesquisam o enredo. Costuram fantasias. Constroem alegorias. Compartilham vídeos. Explicam referências umas às outras. Levam crianças para os ensaios. Escutam os mais velhos.

O conhecimento circula.

E circula porque existe comunidade.

A academia também pode ter uma bateria

Há algo de provocação no título deste artigo. E quero que haja.

“Casa de preto também é academia” incomoda justamente porque nos obriga a rever uma hierarquia.

A universidade é um espaço fundamental de produção científica e precisa continuar sendo defendida, democratizada e ocupada.

Mas ela não possui o monopólio do saber.

Reconhecer isso não diminui a ciência. Ao contrário: amplia nossa capacidade de compreender a complexidade das sociedades e das culturas.

Há saber na universidade e no terreiro.

Na biblioteca e na roda de samba.

No artigo científico e na história contada pela avó.

Na palavra escrita por Conceição Evaristo e nas milhares de vozes que a transformaram em canto na Marquês de Sapucaí.

Há conhecimento no livro.

E há conhecimento no tambor.

O Carnaval de 2026 colocou essas possibilidades diante de nossos olhos. O Império Serrano fez da escrevivência de Conceição Evaristo uma experiência coletiva e terminou como vice-campeão da Série Ouro. A Mocidade Unida da Mooca, por sua vez, levou para sua estreia no Grupo Especial de São Paulo a força das mulheres negras e das tradições ancestrais.

Mas talvez a contribuição desses desfiles não possa ser medida somente pelas notas dos jurados.

Porque troféus registram um Carnaval.

Memórias atravessam gerações.

E, quando experiências históricas, saberes ancestrais e trajetórias de mulheres negras atravessam uma avenida diante de milhares de pessoas, o samba faz algo que sempre soube fazer muito bem: comunica, ensina, preserva e transforma.

A produção intelectual também floresce nas quadras, nos barracões, nos terreiros e nas comunidades. Essa é uma das conclusões que atravessam a pesquisa que deu origem a este artigo.

Talvez falte apenas aprendermos a reconhecer todas essas salas de aula.

Casa de preto também é academia.

Leia também: 

Festa de Oxumarê ganha enredo no Carnaval do Rio 2027