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Intolerância religiosa: ataques a símbolos acendem alerta

Redação Blé NewsRedação Blé News
05 de outubro de 2026 às 17:30

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Intolerância religiosa registra 1.252 denúncias em 2026.
Intolerância religiosa registra 1.252 denúncias em 2026.Reprodução/Agência Brasil

Mais de 1,2 mil denúncias foram registradas no primeiro semestre de 2026; casos atingem diferentes tradições religiosas.

Ataques contra símbolos religiosos voltaram a chamar atenção no Brasil nas últimas semanas e reacenderam o debate sobre intolerância religiosa. Em Fortaleza, quatro estabelecimentos religiosos tiveram as fachadas incendiadas na madrugada de 9 de setembro, entre eles três ligados ao catolicismo e um à umbanda. Em um dos locais, no centro da capital cearense, um cartaz com a ameaça “Se reabrir, todos morrem” foi deixado após o ataque com coquetel molotov. Os casos são investigados pela Polícia Civil. Dias depois, outros episódios envolvendo imagens católicas foram registrados em Londrina (PR) e Salvador (BA), levando o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), a determinar que a Polícia Federal investigue uma possível disseminação de ataques contra imagens religiosas católicas pelo país. Os episódios, porém, fazem parte de um cenário mais amplo: dados do Disque 100 apontam 1.252 denúncias com pelo menos uma violação relacionada à liberdade de crença ou intolerância religiosa entre janeiro e junho de 2026.

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Intolerância religiosa cresce e atinge diferentes crenças

Os números do primeiro semestre mostram que o problema não se limita a uma única tradição religiosa.

Entre janeiro e junho de 2026, foram registradas 1.252 denúncias relacionadas à liberdade de crença ou à intolerância religiosa no Disque 100.

Entre os praticantes de religiões de matriz africana, o cenário continua especialmente preocupante. Candomblecistas e umbandistas são historicamente apontados entre os principais alvos desse tipo de violência.

No primeiro semestre deste ano, foram 270 denúncias envolvendo praticantes dessas religiões. No mesmo período de 2025, haviam sido registradas 192 notificações, o que representa crescimento superior a 40%.

Entre os católicos, também houve aumento. As denúncias passaram de 15, no primeiro semestre de 2025, para 34 no mesmo período de 2026, crescimento superior a 100%.

Os números ajudam a colocar os ataques recentes contra símbolos católicos dentro de uma discussão mais ampla sobre liberdade religiosa, diversidade e proteção de diferentes expressões de fé.

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Ataques a imagens religiosas também entram no radar

Em Fortaleza, os ataques ocorreram na madrugada de 9 de setembro. Além da loja de artigos religiosos católicos atingida por um coquetel molotov, outros dois estabelecimentos católicos e um espaço ligado à umbanda tiveram as fachadas incendiadas.

No dia seguinte, o padre Josileudo Queiroz, da Igreja de São José Operário de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, classificou os episódios como crimes de intolerância religiosa.

"Isso que aconteceu aqui em Fortaleza e que acontece no Brasil afora se chama crime de intolerância religiosa”.

Para o religioso, a laicidade do Estado brasileiro não significa ausência de religião, mas a garantia de que diferentes expressões de fé possam existir sem que uma delas seja oficialmente privilegiada.

“Nós vivemos num país onde devemos entender que o país é laico, ou seja, não tem uma religião oficial. Não é ateu, porque há muitas religiões, há muitas expressões de fé."

A sequência de episódios continuou em outras cidades.

Em Londrina, no Paraná, a cabeça de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, instalada em frente a uma loja de artigos religiosos, foi arrancada.

Em Salvador, uma imagem de Nossa Senhora das Graças foi quebrada. No dia 22, a imagem de Santa Dulce dos Pobres também foi destruída.

Os episódios chamaram a atenção das autoridades federais. Em 30 de setembro, o ministro Flávio Dino determinou que a Polícia Federal investigasse uma possível onda de ataques contra imagens católicas.

A investigação deverá ajudar a esclarecer se os casos possuem alguma conexão ou se são episódios independentes.

Intolerância religiosa, fé e disputa por poder

O debate sobre os ataques acontece em um momento em que a relação entre religião e política ganhou ainda mais espaço no cenário brasileiro.

A presença da fé no debate público não é, por si só, um problema. Em uma democracia, pessoas religiosas têm o mesmo direito de participar da política que qualquer outro cidadão.

A questão surge quando crenças religiosas passam a ser utilizadas como instrumento de disputa por poder, exclusão de grupos ou tentativa de impor determinada visão religiosa ao conjunto da sociedade.

É nesse contexto que ganha relevância a discussão sobre a chamada Teologia do Domínio, corrente que defende, em diferentes interpretações, uma atuação mais abrangente de cristãos na transformação das estruturas sociais, culturais e políticas.

O tema é analisado pelo Blé News no artigo “Teologia do Domínio: como avança a disputa por poder no Brasil”, que discute como determinadas ideias sobre fé, influência política e ocupação de espaços de poder passaram a integrar o debate público brasileiro.

A análise não estabelece uma relação direta entre a Teologia do Domínio e os ataques contra símbolos religiosos citados nesta reportagem. A conexão está em outro ponto: entender como a religião pode ocupar espaço crescente nas disputas de poder e como esse processo pode afetar a democracia, a laicidade do Estado e a convivência entre diferentes crenças.

Nesse cenário, é importante diferenciar participação política de pessoas religiosas de projetos que pretendam transformar uma determinada visão religiosa em regra para toda a sociedade.

A Constituição brasileira estabelece a liberdade de crença e a proteção ao livre exercício das religiões. O Estado, por sua vez, não possui uma religião oficial.

Como a religião entra na disputa política?

A discussão sobre religião e poder ganhou novos contornos durante a campanha eleitoral.

A polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida surgiu nas redes sociais quando começaram a circular publicações que atribuíam ao candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a intenção de retirar da santa o título de padroeira do Brasil.

Arquidiocese de Cuiabá repudia ato de vandalismo à imagem de Nossa Senhora AparecidaArquidiocese de Cuiabá repudia ato de vandalismo à imagem de Nossa Senhora Aparecida — Foto: Reprodução

O candidato recorreu à Justiça Eleitoral e ao STF para retirar as mensagens do ar. O episódio provocou decisões judiciais diferentes ao longo do processo, envolvendo de um lado a necessidade de combater informações falsas e, de outro, a preservação da liberdade de expressão.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) posteriormente formou maioria para manter as publicações fora do ar.

É importante, porém, separar os acontecimentos.

Os ataques contra símbolos religiosos mencionados nesta reportagem ocorreram antes de a discussão sobre o título de padroeira do Brasil entrar no debate eleitoral. Portanto, não há, a partir dos dados apresentados, como estabelecer uma relação direta entre os atos de vandalismo e a disputa política envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

A distinção é importante porque o uso político da religião e os crimes contra símbolos religiosos são fenômenos diferentes, ainda que possam aparecer simultaneamente no debate público.

O crescimento da influência religiosa na política, por outro lado, merece ser acompanhado porque envolve questões que vão além das eleições: laicidade, liberdade de crença, direitos fundamentais e equilíbrio democrático.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre a Teologia do Domínio ajuda a ampliar o olhar sobre o cenário brasileiro.

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Religião como instrumento de exclusão

A discussão também vem sendo feita em um contexto internacional de crescimento de discursos fundamentalistas e de instrumentalização política da fé.

Durante a Semana Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, realizada em janeiro, no Rio de Janeiro, o secretário-geral da ACT Alliance, Rudelmar Faria, afirmou que a exclusão baseada na religião não é um fenômeno exclusivamente brasileiro.

Segundo ele, diferentes formas de fundamentalismo podem transformar a religião em instrumento de exclusão de determinados grupos sociais.

“Nós estamos num momento global em que a religião é instrumentalizada para excluir, porque as religiões hoje, esse movimento da confluência de fundamentalismos, buscam justamente excluir grupos."

Entre os grupos apontados como mais afetados estão mulheres, população LGBTI+, povos indígenas e jovens negros de baixa renda.

“E são grupos que não são cristãos, brancos, ricos e mais do que a sua própria igreja financeiramente, apoiar um grupo de políticos que tem o poder para tomar decisões e criar leis que são excludentes", afirmou, citando que os mais afetados são mulheres, população LGBTI+, povos indígenas e jovens negros de baixa renda.

A ACT Alliance reúne igrejas e organizações baseadas na fé e atua em cerca de 140 países.

O alerta ajuda a ampliar a discussão: quando a religião é utilizada para negar direitos, estimular hostilidade ou justificar violência contra quem possui outra crença, o problema deixa de ser apenas uma divergência religiosa e passa a envolver direitos fundamentais.

Leia também: Religiões afro ganham adeptos, mas perdem espaço político

Qual é a punição para intolerância religiosa?

No Brasil, atos de intolerância religiosa podem configurar crime quando envolvem práticas como discriminação, indução ou incitação contra alguém em razão de sua religião.

O defensor público do Ceará Igor Barreto destacou que esses crimes possuem características específicas no sistema jurídico brasileiro e podem resultar em pena de um a cinco anos de reclusão e multa, conforme o enquadramento legal.

Também ressaltou que determinadas condutas relacionadas à intolerância religiosa são tratadas como crimes graves, com consequências jurídicas que vão além de uma simples infração.

Por isso, destruir uma imagem religiosa, incendiar um estabelecimento ou ameaçar pessoas por causa de sua fé não deve ser tratado apenas como vandalismo ou conflito entre grupos.

A liberdade de crença é protegida pela Constituição brasileira e inclui tanto o direito de professar uma religião quanto o direito de não professar nenhuma.

Em uma sociedade plural, proteger a liberdade religiosa significa defender o direito de todos à própria fé — e também o direito de existir, sem medo, diante da fé do outro.

Os episódios recentes envolvendo símbolos católicos colocaram o tema novamente no centro do debate nacional. Mas os números do Disque 100 mostram que a intolerância religiosa é um problema mais amplo e que atinge, de formas diferentes, comunidades religiosas em todo o país.

O debate sobre religião e poder também exige atenção. Como mostra a análise do Blé News sobre a Teologia do Domínio, compreender o avanço da influência religiosa nas disputas políticas é fundamental para discutir os limites entre fé, poder, democracia e laicidade.

Com informações da Agência Brasil

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